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Defensoria Pública solicita aprimoramento da comunicação entre Hospital César Cals e às mães com bebês em internação

18 de maio de 2020

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A Defensoria Pública do Estado do Ceará solicitou à direção do Hospital Geral Dr. César Cals (HGCC), em Fortaleza, a criação de novos fluxos de atendimento às mães, cujos filhos nasceram na unidade hospitalar. A reunião aconteceu sexta-feira (15), entre as defensoras públicas Mariana Lobo, supervisora do Núcleo de Direitos Humanos e Ações Coletivas, Jeritza Braga, supervisora do Núcleo de Enfrentamento à Violência contra a Mulher (Nudem), e Yamara Lavor, supervisora do Núcleo de Defesa da Saúde (Nudesa), com o diretor do HGCC, Antônio Eliezer Arrais Mota Filho, motivada por denúncias de que as mães estavam encontrando dificuldades para ver os bebês que ficam internados. Participaram também da reunião a médicos e enfermeiros da equipe da neonatologia, além de psicólogos e assistentes sociais do Hospital.

Foi o caso da  empregada doméstica Paula*, de 23 anos. Grávida de 34 semanas, entrou no hospital antes da hora, no fim de abril. O desespero gerado pela inexperiência na maternidade de primeira viagem se juntou a angústia da falta de informações. “Primeiro fui para o Gonzaguinha do José Walter e me falaram que, como meu bebê ainda era prematuro, não iam ter condições de dar assistência para gente, o hospital estava lotado e me mandaram buscar atendimento no Hospital César Cals. Quando cheguei lá, já foram logo me informando dos novos protocolos de atendimento, meu companheiro não ia poder ficar no hospital, precisei ficar direto com luvas e máscaras, o médico ficava a um metro de distância pra falar e quando era o momento do exame eu tinha que ficar em silêncio, não poderia perguntar nada. Mas o pior, foi receber alta e ter que deixar a minha bebê lá”, relembra. 

Na hora do parto, só a equipe de médicos e enfermeiros acompanham a gestante. A mãe mal viu a filha após o nascimento e só teve a sensação de segurá-la no colo pela primeira vez 10 dias após o parto, quando a bebê teve alta. “Como ela nasceu prematura, precisou ficar na UTI . Eu só a vi uma vez. Fiquei uns 20 minutos analisando o corpinho dela, tentando prestar atenção em cada detalhe. Depois eles escreveram na pulseirinha o meu nome e o dela e a levaram. Eu pedia  pra ficar lá junto dela, mas eu não podia porque estaria ocupando o leito de outra pessoa. Nos dez dias que ela ficou lá, eu não pude visitar, ficava esperando alguém do hospital entrar em contato comigo para dizer alguma coisa, mas isso não aconteceu. Todas as vezes que tive notícia da minha filha foi porque eu fui atrás”, relembra.

A Defensoria Pública do Estado do Ceará montou um grupo de trabalho com as defensoras públicas do Ndhac, Nudesa  e Nudem para oficiar as maternidades e conhecer os novos protocolos criados para receber as gestantes neste período de pandemia da Covid-19. “A única que estava fazendo dessa forma, onde as mães não podiam ver os filhos que precisavam de mais tempo de internação era no Hospital Geral Dr. César Cals. Entendemos que o contato entre mãe e filho nesse período é fundamental, inclusive, para a recuperação daqueles que nascem de forma prematura. Ao mesmo tempo sabemos que novos protocolos estão sendo tomados por conta da pandemia, mas é preciso ter empatia com essas mães. É preciso reforçar a equipe de assistentes sociais e psicólogos para que sejam repassadas aos pais notícias dos filhos que precisaram ficar internados mais tempo no hospital. Por isso, a Defensoria iniciou esse diálogo para somar nessa construção de novos fluxos para o atendimento”, reforçou Mariana Lobo, supervisora do Núcleo de Direitos Humanos e Ações Coletivas. 

Após a reunião, a direção do Hospital se comprometeu a ampliar o quadro de assistentes sociais e psicólogos, para que tais profissionais entrem em contato diariamente com as famílias repassando informações sobre as crianças em internação prolongada, e ampliar o horário de atendimento às famílias que entram em contato com a Unidade Neonatal, que atualmente é das 13h às 17h. “Outro pedido da Defensoria Pública é para que a unidade hospitalar elabore uma escala de atendimentos, possibilitando que a equipe da Unidade Neonatal  entre  em contato diariamente, em horários definidos, com a família dos bebês internados, informando o boletim médico e esclarecendo eventuais dúvidas”, complementou Jeritza Braga, supervisora do Núcleo de Enfrentamento à Violência contra a Mulher.

“A reunião foi muito positiva e a direção se comprometeu ainda a encaminhar um ofício  para a Secretaria de Saúde do Estado do Ceará solicitando a criação de novas linhas telefônicas e a contratação e instalação de roteadores de internet. O objetivo com essa tecnologia é ampliar a realização de videochamadas na tentativa de conectar os bebês e suas famílias”, destaca a defensora Yamara Lavor. Uma nova reunião está prevista para acontecer no dia 22 de maio para acompanhar os encaminhamentos. 

Para a coordenadora do setor psicossocial da Defensoria, psicóloga Andreya Arruda, é preciso dar uma atenção maior às puérperas. Mesmo com os novos protocolos em virtude da pandemia, essas mães necessitam de um momento de maior humanização para ter notícias de seus filhos. “O puerpério, por si só, já é uma fase de muitas alterações hormonais e de oscilações emocionais e, no caso delas, que não estão construindo o vínculo mãe-bebê em virtude da situação, a atenção e empatia com essas mulheres precisam ser redobradas. O bebê esteve durante muito tempo com elas, abrigado dentro do útero, protegido em uma relação de simbiose, esse elo não se rompe assim. Para além de tudo, temos os receios que essas mães vêm enfrentando com a situação de seus filhos estarem internados e a situação dos riscos de contaminação com a Covid-19 dentro de um ambiente hospitalar. Imagina a angústia que é para elas não estar com eles e não estabelecer esse vínculo e estarem privadas nesse momento de exercerem sua função materna?”, questiona Andreya.