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Mais uma Oficina de Pais e Filhos reforça os laços para os novos ciclos, após divórcio

18 de fevereiro de 2020

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Teve início, na última sexta-feira (14), a programação de 2020 da Oficina de Pais e Filhos, realizada pelo Núcleo de Solução Extrajudicial de Conflito (Nusol), um momento que visa fortalecer e orientar pais, mães e filhos que estão vivenciando a fase de reestruturação após rompimento dos laços conjugais. Esta é a oitava edição da oficina que faz parte do Projeto Sintonia, ao longo do ano, serão realizadas mais duas – em junho e outubro.

Os gabinetes dos defensores se ajustaram para tornar o ambiente mais acolhedor aos participantes que, divididos em pequenos grupos, passam por um momento de escuta e reflexão. A decoração sempre traz muitas cores para dar as boas-vindas e, de acordo com a defensora pública e supervisora do Nusol, Rozane Magalhães, a intenção é fazer com que as pessoas cheguem e sintam-se especiais e que colaborem de forma positiva para o novo ciclo, após o divórcio. “Tudo aqui é feito com muito carinho e dedicação, temos cuidado em todos os detalhes, pois entendemos o quanto a Oficina de Pais e Filhos é uma ferramenta capaz de proporcionar um novo olhar diante das difíceis circunstâncias da reestruturação familiar. O divórcio é uma demanda recorrente aqui no Núcleo e o nosso anseio é contribuir para redução de possíveis danos que podem ocorrer com o fim do laço conjugal e, consequentemente, para o fortalecimento dos laços parentais, destaca a defensora pública.

Vinte e cinco anos de casados. Foi assim que Francisco de Assis Ferreira, 50 anos, agente penitenciário, falou sobre o casamento que terminou há um mês. Do relacionamento, dois filhos, 24 e 16 anos. O diálogo com a ex-companheira ainda é difícil, mas afirma que estão buscando estratégias para lidar com a nova fase de uma maneira saudável, respeitando o tempo e espaço de cada um. “É preciso se adaptar. Recebi o convite e não pensei que seria tão positivo, mas o fato é que atividades como essas oferecidas na Oficina Pais e Filhos nos ajudam a lidar com essa situação e com os sentimentos que fazem parte, pois por mais que seja feito amigavelmente, não é fácil. Eu, ela e meu caçula estamos participando, afinal é necessário buscar auxílio para vivenciar tudo isso da melhor maneira para todos nós”.
Em 2019, cerca de 200 famílias participaram das Oficinas e, segundo a defensora pública, Rozane Magalhães, a meta é conseguir ampliar essa participação ao máximo. “As partes ainda são resistentes, sempre abordamos isso, seja pelas dificuldades da rotina, quanto pela falta de compreensão da importância do que é abordado aqui. O que oferecemos durante a realização das Oficinas são momentos de reflexão das relações entre os pais e filhos, visando fomentar uma convivência parental harmoniosa e feliz, conquistada através do diálogo e do respeito, por isso estaremos intensificando a divulgação, os convites e a explicação do que significa esse momento para que esse ano a gente consiga trazer ainda mais famílias”, disse.

Daiana Rodrigues dos Santos Silva, 31 anos, assistente administrativa, que já estava separada há dois anos, veio com a decisão de oficializar o fim do casamento de 10 anos. “Entramos em consenso quanto o divórcio e buscamos a Defensoria Pública. Quando  decidimos pelo divórcio é comum que passe a existir uma situação de conflito, pois é uma escolha que traz muitas mudanças, diversos sentimentos e eu mesma não sabia como reagir a tudo isso, no começo foi muito difícil. A nossa presença aqui na Oficina é a expressão do nosso anseio por dar o nosso melhor para o bem-estar do nosso filho, e para que isso aconteça precisamos cuidar de nós – individualmente – também. Esse momento de ouvir, de falar, nos ajuda a enxergar a situação de forma mais ampla, madura, repensar e tentar melhorar. Para uma criança tudo isso é ainda mais complexo, é como um processo de luto e queremos que ele se sinta amado, acolhido, independente do fim do nosso relacionamento conjugal”.

Círculo de Construção de Paz: uma grande roda

O Círculo de Construção de Paz é um momento de partilha, todos em uma roda, atentos ao que cada um tem a falar. A prática tem sido aplicada nas oficinas para as crianças com o objetivo de proporcionar um momento com atividades lúdicas e interativas para que possam compartilhar de forma natural seus sentimentos em relação ao novo contexto familiar. No círculo eles podem se expressar e ouvir os outros de uma forma atenta e empática. De maneira divertida, a acolhida é com os pés no chão, conversa e muita descontração. Os crachás são feitos na hora e fica permitido abusar da criatividade. Durante o Círculo, os instrutores convidam as crianças para  as atividades propostas, com desenhos, artes e interação na contação de histórias e assim se sentir acolhidos para compartilhar suas próprias histórias. Segundo a psicóloga e coordenadora do setor de Psicossocial da Defensoria Pública, Andreya Arruda, a metodologia contribui muito para a adaptação dessa nova configuração familiar. “Estamos aqui para auxiliar essas crianças a vivenciarem esse novo momento familiar de maneira mais tranquila, dividirem conosco os seus pensamentos e anseios,  seja por meio da fala, dos desenhos, da contação de histórias com fantoches. A realização do Círculo de Construção de Paz tem o objetivo de colaborar para que estas crianças passem por esse momento com mais leveza, pontuou Andreya.

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Já na sala dos adolescentes são abordados temas que tratam da desculpabilização, sobre a compreensão do que é o casal, motivos e causas do divórcio, além do incentivo para que tenham empatia pelos pais diante da situação; por fim os direitos e deveres deles nessa reestruturação. A psicóloga do Núcleo de Núcleo de Enfrentamento à Violência contra a Mulher (Nudem) e instrutora da Oficina Pais e Filhos, Úrsula Malveira, explica que o divórcio traz um impacto bastante intenso para o adolescente, pois pensam que grande parte das disputas e discussões que existem podem ser por conta da fase que estão, já que durante o processo de adultificação acontecem embates, questionamento de ordens, posicionamentos. “Quando a decisão da separação ocorre nesse período eles tendem a trazem consigo uma certa culpa. Por isso falar sobre a desculpabilização é tão importante, pois mostramos para estes filhos que não há nada que eles possam ter feito que seja a causa do fim do relacionamento, visto que estar juntos ou separados é uma decisão do casal. A Oficina visa proporcionar leveza, tirar o sentimento de culpa, colocá-los em um lugar de empatia e também de imparcialidade, pontuou Úrsula.

Para o adolescente F.S, as práticas realizadas durante a Oficina contribuíram para que enxergasse que a decisão dos seus pais de se divorciarem não tem haver com ele. “Aqui está sendo uma oportunidade de vencer o sentimento de culpa em relação ao fim do casamento dos meus pais. Agora sei como reagir diante de tudo isso. Eu sentia uma perturbação muito grande, porque imaginava que a culpa poderia ser minha. Estar aqui me fez refletir de modo diferente e já me ajudou muito. É uma experiência muito boa e indicaria para outros filhos que estejam vivenciando o divórcio dos pais”.

Participaram das Oficinas a equipe do Psicossocial da Defensoria Pública, Andreya Arruda, Maria do Socorro Serpa Barros, Maria Mediatriz Parente Camelo, Annielly Maria Aquino Bezerra, Isabeli Barbosa Nogueira, Úrsula Malveira, a colaboradora do Nusol, Soraia Candea Portela e membros da Coordenadoria e Mediação Social, Justiça Restaurativa e Cultura de Paz, vinculada ao Gabinete da Vice-Governadoria do Ceará, Amora Matos Vasconcelos e Lilian Gondim.