Posso ajudar?
Posso ajudar?

Site da Defensoria Pública do Estado do Ceará

conteúdo

Defensoras populares do Ceará são referência para política nacional do Ministério da Justiça

Defensoras populares do Ceará são referência para política nacional do Ministério da Justiça

Publicado em
Texto: Bruno de Castro
Foto: Ari Feitosa
Infográficos: Diogo Braga e Valdir Marte

 

O sucesso do primeiro curso de formação de defensoras populares rendeu à Defensoria Pública do Ceará (DPCE) mais do que as conquistas do Prêmio Innovare, o mais importante reconhecimento da justiça brasileira, em 2025, e do Selo Esperança Garcia de antirracismo, em 2024. Também transformou o projeto em referência nacional para o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), do Governo Federal.

O órgão está elaborando uma política de capacitação de defensoras populares inspirada na iniciativa da DPCE. A expectativa é de que o lançamento aconteça em janeiro de 2026, em solenidade em Fortaleza, junto com o anúncio do edital para formação da segunda turma cearense – cujo tamanho será 20% maior do que a primeira, chegando a 120 mulheres selecionadas em diversos municípios.

Na opinião de uma das coordenadoras-gerais do projeto no Ceará e diretora da Escola Superior da Defensoria Pública (ESDP), defensora Amélia Soares da Rocha, a metodologia do curso é o diferencial, pois aposta em aspectos até agora não desenvolvidos em programas do tipo Brasil afora. Há ainda a incorporação de práticas exitosas em outros países e a expertise feminista das quatro coordenadoras.

“Nós fizemos um curso que foi além de uma formação em direitos humanos e teve como base o empoderamento feminino a partir de uma aproximação natural entre as mulheres selecionadas, que já eram lideranças nos territórios em que viviam, e a Defensoria, que tem nas populações mais vulnerabilizadas a sua razão de existir. E fizemos tudo isso considerando a diversidade do grupo, no sentido de promover encontros entre as lutas”, revela a defensora.

PELO BRASIL
Segundo levantamento inédito publicado em dezembro de 2025 pela plataforma “Ocorre Diário”, estima-se a existência de 5.000 defensores(as) populares no Brasil. Eles/elas estão em 19 dos 27 estados e Distrito Federal (DF). Deste total, pouco mais de 3.000 – ou 60% – são mulheres do Ceará, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Santa Catarina e Tocantins (veja gráfico abaixo). Nestes locais, os projetos foram voltados exclusivamente ao público feminino.

No projeto cearense, destaca-se o fato de as 100 participantes terem recebido bolsa mensal de R$ 700 durante um ano e sido monitoradas por alunas da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab). A busca ativa que essas estudantes faziam diante da ausência de alguma cursista garantia o retorno da mulher ao programa. Cada uma acompanhava de perto um grupo de dez defensoras populares. Assim, as aulas tiveram presença média de 93%.

Os encontros aconteciam a cada 15 dias em três núcleos diferentes (Fortaleza, Juazeiro e Sobral), de forma rotativa. “Nós imprimimos nas aulas o reconhecimento ao notório saber das alunas. Isso foi fundamental, mas não só para elas. Se mostrou uma troca valiosíssima também para nós, que fomos apresentadas a tantos outros olhares. Todas nós saímos transformadas”, pontua a também coordenadora-geral do projeto, antropóloga Violeta Holanda.

Esta dinâmica, aliada ao fato de as aulas terem acontecido sempre aos sábados, além de ofertada a possibilidade de participação on-line, fez com que nenhuma mulher desistisse da formação. Todas as 100 foram diplomadas, sendo a maioria delas negras e indígenas (59%). “O curso era um lugar em que elas se reconheciam. Como professora, e professora negra, é importante ver mulheres negras apostando na educação. Porque não há como falar de justiça sem falar de mulheres negras. Penso que a metodologia do curso conduziu essa discussão da melhor forma possível, em busca de uma centralidade considerando que essas mulheres têm vivências marcadas pelo pertencimento racial. É algo desafiador, mas temos que enfrentar essa realidade com a cara e com a coragem”, finaliza a coordenadora das alunas da Região do Cariri, antropóloga Vera Rodrigues.

RETORNO ÀS COMUNIDADES
Para receberem o título de defensoras populares, as 100 mulheres tiveram que retornar os aprendizados das aulas para as comunidades nas quais moram e/ou atuam. Fizeram isso em Planos de Ações Comunitárias (PACs) e Clubes de Leitura, estes últimos inspirados em iniciativas semelhantes ocorridas no México e na Espanha, e que tinham de ser preferencialmente feministas e/ou utilizar a Prateleira Maria da Penha, projeto da Secretaria Estadual da Educação (Seduc) que disponibiliza em escolas públicas livros sobre equidade de gênero.

“O curso não previa apenas a capacitação, mas a intervenção com base nos saberes compartilhados e o apoio das instituições na execução de um produto como pré-requisito de formação. Assim, cada uma colocou em prática através de uma ação concreta a intervenção em suas realidades de forma a melhorar a vida de sua comunidade. Temos de forma permanente nas defensoras populares o elo destas com a Defensoria e com a Unilab para contribuir com os desafios do dia-a-dia dos territórios. As aulas proporcionaram a convivência entre diversas mulheridades, gerando uma rede de afetos e solidariedade, principalmente quando passávamos a conhecer tais realidades e ativismos de resistência para a sobrevivência em uma sociedade hostil para nós”, pontua a coordenadora das alunas de Fortaleza e entorno, educadora Luma Andrade.

As quatro coordenadoras do projeto

 

É por conta disso que a Secretaria de Acesso à Justiça (Saju), do MJSP, pretende replicar a metodologia Brasil adentro. A gestora do órgão, Sheila de Carvalho, assegura que o recurso para a segunda turma do Ceará já está garantido. “Que alegria acompanhar esse percurso: da aula inaugural, passando pela formatura das 100 defensoras, até chegar ao reconhecimento nacional com o Prêmio Innovare. Uma honra imensa compartilhar esse caminhar ao lado de mulheres tão maravilhosas. Vamos juntas levar as Defensoras Populares para todo o país. Porque mulheres são como águas: quando se juntam, crescem”, pontua.

O PROJETO
A primeira edição do curso de formação de defensoras populares do Ceará foi fruto de convênio entre a DPCE e a Unilab, como mentoras da metodologia e executoras do projeto, que também teve como parceira a Saju/MJSP no custeio de R$ 1,3 milhão para pagamento das bolsas. O projeto durou um ano e beneficiou 100 mulheres de 16 municípios cearenses, sendo 50 de Fortaleza e entorno, 20 da região Norte e 30 do Cariri.