
Misoginia: como enfrentar a questão nas instituições públicas
Na última sexta-feira (28) o #NaPausa trouxe o tema: “Discriminação e Misoginia nas Instituições”, em um bate-papo com a professora e integrante do grupo de pesquisa Direito, Gênero e Famílias, Myllena Calazans, e com a defensora pública, Lívia Pinheiro Soares.
Dentre os tipos de opressão, a misoginia representa ódio e aversão contra o sexo feminino e se dá de modo sutil, por vezes. É considerada crime pela lei n.º 13.642, instaurada no Brasil em abril de 2018, determinando punição. Elas relataram os vários estágios e nuances de misoginia dentro das instituições e que a resposta é falar sobre, abrir a questão. A professora Myllena ressalta o quanto é preciso proporcionar um ambiente de escuta dentro das instituições. “É necessário que membros, colaboradores(as) e usuários encontrem um espaço que possam compartilhar alguma prática de violência e discriminação. Esse é o passo principal para combater as violações dentro das instituições – se dispor a olhar com mais cuidado e possibilitar a escuta.
A defensora pública, Lívia Pinheiro Soares, explica que essa realidade é cravada em um sistema patriarcal, que vem desde os primórdios em uma lógica construída por homens. “É algo já tão enraizado, uma questão estrutural mesmo que acaba sendo comum vermos mulheres ilustrando isso, externando esse preconceito”.
A professora Myllena Calazans afirmou que o pano de fundo marcado por um estado com práticas racista, machista, um âmbito de discriminações favorece a discriminação. “O cenário comum aos olhos dos cidadãos é aquele onde se tem o homem hétero, branco, de classe média alta e com um histórico onde as famílias sempre estiveram no poder. O fato é que a manutenção dessas pessoas dentro do judiciário, do legislativo fortalece o que vivemos hoje”, defende a professora.
Durante o bate-papo, as debatedoras relembraram o depoimento da líder sindical Creusa Oliveira sobre os percalços que enfrentou juntamente com outras mulheres na luta pelos direitos das trabalhadoras domésticas. “É nítida a sequência de dificuldades, tanto para chegar até a cidade de Brasília; estando lá, para entrar na instituição; a necessidade de interferência dos parlamentares que eram mais próximos da lutas delas. Relatos desse tipo também são comuns à população indígena, população de rua, sem -terra e vários outros segmentos. Não podemos colaborar com a manutenção desse contexto”, diz Myllena.
“A desconstrução é, a princípio, uma tarefa diária”. A ponderação de Lívia Pinheiro Soares dar-se pela necessidade de ainda haver uma real conscientização da existência da violência, ideia essa que reforça por Myllena, demonstrando a necessidade de mudar a forma de enxergar a realidade ao nosso redor. “É preciso não se acostumar ao vermos em novos concursos, em turma de 40 pessoas, uma média de 3 mulheres e ainda nenhuma pessoa negra. É aí que me perguntou sobre quais são as barreiras que existem para mulheres, mulheres negras ou com deficiências adentrarem nesse grau maior de hierarquia?”.
Em paralelo, a defensora pública destaca o orgulho de ver na Defensoria Pública do Estado do Ceará um cenário de mulheres que lideram. “Tenho muita satisfação de falar sobre a nossa Defensoria, onde mulheres estão se destacando, estamos no quarto mandato consecutivo onde a função da defensoria geral é exercida por mulheres, além de termos mulheres em cargos de supervisão, bem como em nossa associação, onde temos uma mulher na presidência. Infelizmente é uma conquista que eu não encontrei no órgão onde eu atuava antes. Lá era comum ouvir que mulher só servia para atrapalhar e que trabalhar com uma mulher era trabalhar por dois. A impressão que eu tinha era que o anseio era para manter aquela situação, onde o homem se sentia superior no exercício das funções”.