Quando a pensão vira arma: como a violência de gênero atravessa as ações de alimentos
Texto: Bianca Felippsen
Arte: Diogo Braga
“Você vive às minhas custas”
“Sem a minha pensão você não se sustenta.”
“Eu pago tudo, você não faz nada.”
“Você administra mal e paga tuas contas de casa com meu dinheiro”
Cada vez que o genitor precisa fazer o pagamento, vem uma reclamação, sempre no mesmo tom. Ali a violência se esconde na linguagem: uma retórica que rebaixa a mulher, invisibiliza o trabalho de cuidado e desloca o centro da discussão para o ego masculino, retirando do foco quem deveria ser prioridade: as crianças.
Essas frases se repetem em processos, mensagens e conversas privadas. Não são exceção. São padrão. Em todas, a pensão alimentícia devida pelo genitor aparece como um favor, nunca como direito. Ao rebaixar a mulher por meio do dinheiro destinado aos filhos, o discurso não apenas distorce a finalidade da pensão, como reproduz uma forma de violência de gênero que se expressa no controle, na humilhação e na tentativa de apagamento da autonomia feminina.
No cotidiano de milhares de mulheres, a pensão alimentícia deixa de ser apenas um instrumento legal de garantia do sustento dos filhos e passa a funcionar como mecanismo para chantagem moral e desqualificação. Não há socos, mas há feridas. O constrangimento é constante.
L.B. fala sobre isso com tristeza. “É muita humilhação, ofensa, me faz sentir incapaz e me deixa péssima. Toda essa situação vai mexendo com você e, mesmo buscando apoio psicológico, você se abate. Temos três filhos, em idade escolar e passo o dia em função deles: buscar na escola, almoço, dever… O pai simplesmente paga o valor devido, mas ainda assim tenho que ouvir esse tipo de ofensa de forma recorrente”, lamenta.
Ao transformar a pensão em instrumento de superioridade moral, o homem reforça uma lógica antiga: a de que o dinheiro autoriza o poder e a opressão de outra pessoa, no caso a mulher. Nesse discurso, o pagamento mensal passa a ser apresentado como sua prova de caráter, generosidade ou sacrifício pessoal.
“O impacto na saúde mental da mulher é devastador. A mulher é colocada no lugar de dependente, mesmo quando trabalha, mesmo quando ajuda a sustentar aquela casa e quando, na maioria das vezes, assume sozinha a rotina dos filhos. O cuidado diário, o tempo, o trabalho emocional e doméstico são desconsiderados, como se não tivessem valor econômico ou social”, explica a psicóloga Andreya Arruda, chefe do setor de psicossocial da Defensoria do Ceará.
Pensão não é apenas sobre dinheiro. É sobre dignidade. Sustentar financeiramente um filho é dever legal de ambos. Andreya explica o efeito que isso causa na autoestima, na autonomia e na saúde mental desta mãe. “Mesmo mulheres que trabalham, estudam e cuidam dos filhos relatam sensação de fracasso. Isso acontece porque o discurso violento atinge a identidade materna e feminina. Esse tipo de violência tem efeitos profundos, e muitas vezes invisíveis sobre a saúde mental da mulher, mas podem causar diversos desdobramentos, como ansiedade, medo, culpa e baixa autoestima”.
L.B. reconhece estes sintomas. “Aos poucos, eu passo a achar que sou incapaz como mãe, como mulher. E isso ninguém vê. Ele me faz duvidar do meu direito e do direito dos meus filhos”, desabafa. “Não são palavras. São socos que não deixam marcas no corpo, mas quebram a gente por dentro”.
A criança fora do centro
Quando a pensão vira arma, o direito da criança é sequestrado por uma disputa de poder. O sustento passa a ser usado como moeda simbólica para controlar, ameaçar ou silenciar a mãe.
Para a defensora Jeritza Braga, supervisora do Núcleo de Enfrentamento à Violência Doméstica (Nudem), os filhos, no meio de uma disputa, deixam de ser sujeitos de direitos e passam a ocupar o lugar de justificativa para o conflito. “Este tipo de discurso não fala sobre bem-estar, mas sobre posse. Não fala sobre responsabilidade compartilhada, mas sobre cobrança. Que tipo de paternidade se constrói quando o sustento é usado para diminuir a mulher que cuida? Violência econômica também é violência de gênero”, afirma.
A Lei Maria da Penha reconhece que violência não se limita à agressão física. “Controlar recursos, ameaçar cortar sustento, humilhar pelo dinheiro, dificultar a autonomia financeira ou usar a dependência econômica como forma de dominação são práticas enquadradas como violência econômica e psicológica”, pondera.
A pensão existe para proteger crianças. Quando é usada para ferir a mãe, falha como direito e revela a violência que a sustenta. “O discurso da pensão como favor também alimenta o julgamento social. Mulheres que denunciam esse tipo de violência são frequentemente vistas como interesseiras, ingratas ou oportunistas. O resultado é o isolamento, o silêncio e a naturalização do abuso”, afirma Jeritza.
Protocolo de Gênero
Desde 2021, o Conselho Nacional de Justiça instituiu o Protocolo para Julgamento com Perspectiva de Gênero, que reconhece que as desigualdades estruturais entre homens e mulheres impactam nas relações familiares, especialmente nos casos envolvendo cuidado, sustento e divisão de responsabilidades parentais. O Protocolo estabelece que os operadores do sistema de justiça devem considerar o contexto social e a sobrecarga histórica imposta às mulheres, evitando interpretações que reforcem estereótipos de dependência, oportunismo ou desqualificação da maternidade.
A proposta é revisar práticas que, ao longo do tempo, naturalizaram desigualdades, garantindo que mulheres não sejam penalizadas por relações de poder que historicamente as colocam em desvantagem e comprometem o acesso a um julgamento justo.
Para dar exemplo disso, o livro “Cuidar, verbo transitivo”, organizado por Ana Amélia Camarano e Luana Pinheiro, aponta que, no Brasil, o trabalho de cuidado não remunerado recai de forma desproporcional sobre as mulheres, afetando sua inserção no mercado de trabalho e capacidade de gerar renda própria.
Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) confirmam esse cenário: as mulheres possuem uma jornada de afazeres domésticos maior que a dos homens, em diversas faixas sociais. Em diferença absoluta de horas, as mulheres realizam, em média, mais de dez horas de afazeres domésticos a mais que seu cônjuge.
Diversos estudos sobre gênero convergem ao demonstrar que a maternidade produz impactos desproporcionais. A divisão desigual das tarefas domésticas e do cuidado cotidiano segue sendo um dado estruturante da organização social brasileira e, mesmo quando há decisões judiciais que reconhecem a guarda compartilhada, a gestão concreta do cuidado permanece majoritariamente sob responsabilidade feminina. Nesse contexto, a ideia de que a mulher “depende” da pensão desconsidera uma desigualdade construída muito antes da separação.
Onde buscar ajuda:
Nudem Fortaleza
Tabuleiro do Norte, s/n, Couto Fernandes (dentro da Casa da Mulher Brasileira)
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Nudem Caucaia
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(85) 3194.5068 | 5069 (ligação)
Nudem Maracanaú
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Nudem Sobral
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Rua André Cartaxo, 370 – Centro (sede da Defensoria Pública)
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Nudem Juazeiro do Norte
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