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Um encontro que o destino desenhou: professor encontra ex-aluna no cadastro de adoção e tornam-se uma família

Um encontro que o destino desenhou: professor encontra ex-aluna no cadastro de adoção e tornam-se uma família

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TEXTO: DEBORAH DUARTE
ILUSTRAÇÃO: VALDIR MARTE

Ensinar sempre foi mais do que uma profissão — era uma vocação. Em uma sala de aula de robótica, onde fios, sensores e códigos dividiam espaço com sonhos e desafios, um educador se deparou com histórias de vida marcadas pela vulnerabilidade. Entre os alunos, havia adolescentes vindos de unidades de acolhimento, carregando no olhar a vontade de crescer e transformar suas realidades. Foi nesse ambiente que ele conheceu uma jovem que mudaria o rumo de sua própria família.

Desde o início de 2024, o homem falava para sua esposa sobre uma aluna em especial. “Ele dizia que ela era engraçada, com uma energia boa”, relembra a esposa. A aluna não era a melhor aluna da turma, mas tinha um brilho próprio. Às vezes, dormia durante as aulas – uma exaustão que o professor compreendia como reflexo de uma vida marcada por desafios. Mesmo assim, ela se destacava de outro jeito, com um sorriso fácil e um jeito doce de ver o mundo.

O casal já havia conversado sobre adoção, mas ainda não estava oficialmente habilitado. Em abril daquele ano, decidiram finalmente dar o passo. Entregaram documentos, participaram do curso, abriram as portas de sua casa para a visita da assistente social. No cadastro, definiram que desejavam adotar uma menina de até 9 anos. Não imaginavam que o destino os levaria além dessa escolha.

O processo corria quando, em um intervalo na escola, o homem acessou o Sistema Nacional de Adoção. Entre as informações do sistema, um nome chamou a atenção.  Ao ver o perfil da menina, ele reconheceu imediatamente a aluna que tanto admirava. Era ela. Sua aluna era uma adolescente disponível para adoção. O coração ficou acelerado. Em casa, contou para a esposa, que ficou surpresa e dividida. “Já era uma garota de 13 anos, além da idade que haviam inicialmente estabelecido. Mas, no fundo, algo já pulsava forte entre eles”, relembra a esposa.

Foram dias de ansiedade, aguardando uma resposta do sistema. O que deveria levar 20 dias se transformou em mais de um mês e meio de espera. Ligações, mensagens, e-mails. A cada resposta vaga, mais o desespero crescia. No começo de dezembro, enfim, uma notícia: a jovem havia sido informada sobre o interesse do casal. Ela reconheceu o professor e aceitou conhecer aquela família que desejava acolhê-la.

A aproximação foi delicada e cheia de emoção. No começo, visitas ao abrigo. Poucas horas, olhares tímidos, sorrisos que surgiam aos poucos. Depois, vieram os finais de semana. O Natal chegou, e a adolescente passou os dias de festa na casa do casal.

“Cada primeiro momento foi único”, conta a mãe. “A primeira ida ao shopping, o primeiro sorvete em família, a primeira festa do pijama, só nós três.” A ex-aluna se tornou filha. Uma filha que chegou com 13 anos, mas que trouxe consigo a leveza e o amor de uma infância redescoberta.

O que parecia apenas uma relação de professor e aluna se transformou em família. O casal descobriu que o amor não se limita a rótulos, a faixas etárias, a previsões. A adolescente, por sua vez, descobriu que o mundo pode ser um lugar onde o abraço é verdadeiro e onde o lar vai além das paredes de um abrigo.

“Eu falo que não existe ainda um sentimento que envolve o maternar, porque é tudo realmente muito diferente. Eu amo a minha família demais, eu amo meu marido incondicionalmente, mas quando a gente envolve um filho, tudo assume um outro patamar.  Sabe quando você acha que não tem mais como o seu coração aumentar ainda mais? Sabe só que aí você vê que você estava errado, que ainda tem muito, muito espaço e que dá para crescer ainda mais. Eu acho que está sendo isso. E o fato de ser uma adolescente, de ser uma adolescente cheia de traumas, com suas próprias questões também, como ser único e individual, ímpar, tornar ainda mais singular. A forma como estamos escrevendo a nossa história, é única”, revela a mãe.

Todo o processo de adoção foi intermediado pela Defensoria Pública do Estado do Ceará, por meio do Núcleo de Atendimento da Infância e Juventude (Nadij), que atua na proteção dos direitos de crianças e adolescentes em acolhimento e no suporte às famílias pretendentes.

“A Defensoria age acompanhando as crianças e adolescentes que estão em situação de acolhimento institucional e que constam em cadastro de adoção, inclusive busca resguardar seus direitos fundamentais e acompanhar suas demandas processuais e sociais. Ainda, entramos com as ações de adoção pelo Sistema Nacional de Adoção, após a vinculação dos pretendentes habilitados à uma criança ou adolescente disponível para adoção. Essa vinculação é feita pelo SNA, a equipe da Seção de Cadastro de Adotantes e Adotandos do Tribunal de Justiça do Ceará entra em contato com o pretendente para informar que há uma criança disponível, de acordo com o perfil escolhido pelo adotante, e, a partir disso, inicia-se o período de vinculação entre o pretendente e a criança”, explica Noêmia Landim, defensora pública supervisora do Nadij.

No Ceará, são 1.112 pretendentes habilitados para adoção, enquanto 852 crianças e adolescentes seguem em acolhimento e apenas 173 estão disponíveis para adoção. No Brasil, a discrepância é ainda maior: 34.562 pretendentes para apenas 5.251 crianças e adolescentes.

Os pretendentes à adoção podem buscar a Defensoria, a qualquer momento, para auxílio sobre como dar início ao processo de adoção pelo cadastro, orientações sobre o passo a passo inicial, a necessidade de realizar o pré-cadastro no sistema e sobre a documentação necessária para dar início ao processo de habilitação no fórum do TJCE, bem como ajuizamento das as ações de adoção após a vinculação da pessoa ou casal pretendente habilitado à criança ou adolescente disponível para adoção. A Defensoria também realiza o acompanhamento processual até sua finalização através dos defensores (as) públicos (as) lotados na Vara da Infância e Juventude.