Antes do orgulho, houve o silêncio: “É por isso que saímos às ruas. É por isso que a gente quer visibilidade, quer orgulho”.
Texto: Camylla Evellyn, estagiária sob supervisão
Arte: Diogo Braga
Um papel não inventa o amor. Também não substitui a convivência, o cuidado, a casa dividida, os planos e os medos. Mas, diante da burocracia, do preconceito ou da urgência, ele pode dizer o que a vida já sabe: aquela família existe.
O defensor público Matheus Camacho, de 35 anos, e seu marido Flávio Camargo, 31 anos, estão juntos desde 2019. Há quatro anos mantém união estável. Mesmo esclarecidos sobre a importância daquele papel, reconhecido pelo STF como o instrumento da garantia de direitos iguais, eles ainda assim enfrentam percalços.
A busca por reconhecimento passou por uma situação que revela como a burocracia ainda pode tentar separar aquilo que deve ser tratado de forma igual. Quando decidiram pela formalização, os dois reuniram a documentação mas, na hora da assinatura, Matheus percebeu que o documento não trazia a expressão “união estável”. No papel, constava “união homoafetiva”.
Ele se recusou a assinar. “Não vou assinar isso aqui. O que eu vim fazer foi um papel de união estável”, lembra. Para Matheus, aquela não era apenas uma escolha de palavras. Criar uma categoria específica para casais formados por pessoas do mesmo sexo poderia sugerir que a união estável comum seria reservada a pessoas heterossexuais, enquanto casais LGBTQIA+ ocupariam uma espécie de modalidade paralela. O cartório consultou o setor jurídico e, depois, corrigiu o documento.
A diferença pode parecer pequena para quem olha de fora. Para quem vive, diz muito. Não se tratava de negar a identidade do casal, mas de afirmar que o direito acessado era o mesmo. “A partir do momento que cria uma outra categoria, é como se a união estável fosse acessível apenas para heterossexuais, e a união homoafetiva para os gays, como se fosse outro tipo de união”, afirma.
Quando a diferença vira alvo
A história de Matheus repete a de muitas pessoas LGBTQIA+ e também mostra que a luta pelo reconhecimento começa muito antes da formalização perante o cartório. Ela começa na descoberta – pelo olhar dos outros, primeiro, da sexualidade e, infelizmente, do preconceito. Quando criança, ele lembra de ouvir na escola comentários sobre sua sexualidade antes mesmo de entender o que aquela palavra significava. Em casa, o termo não era tratado. Na escola, “a diferença” virou alvo.
Ainda na primeira série do Ensino Fundamental, depois de mudar de escola, ele recorda que passou a ser alvo de ataques de outras crianças. “Eu era muito branquinho com a bochecha bem rosada, a boca muito vermelha e meus cílios são grandes. Era meio que um forasteiro para muita gente. E ainda era um forasteiro que eles identificavam como diferente. A partir disso começaram a olhar para mim e falar: ‘Ah, ele passa maquiagem, ele vem maquiado para a escola, ele é viado’. Eu nem sabia o que era gay, viado, porque isso era uma coisa meio que proibida de se falar em casa. Meus pais não diziam o que era, apenas repreendiam, como se fosse um palavrão”, relembra.
Em uma das lembranças mais marcantes, Matheus se vê no bebedouro, esfregando o rosto diante dos colegas para provar que não havia maquiagem alguma. “Mas obviamente não adiantou, porque depois que eles encontram um alvo, aquela pessoa fica marcada”, recorda
Os episódios seguem vivos na memória e repercutem na vida. Ele lembra que, em determinado momento, uma professora sugeriu que sua mãe buscasse ajuda psicológica para ele, não para enfrentar a violência sofrida, mas para as chamadas “terapias de conversão”, que precisam do grifo: não existem. “Nunca se cogitou chamar a mãe deles para que essa violência cessasse. Eles foram atrás da minha mãe para que eu deixasse de ser diferente. Então, mais uma vez, essa questão da heteronormatividade tentando impor um padrão de comportamento”, lamenta.
O bullying assume múltiplas formas e o preconceito está dentro delas. Pode ser verbal, moral, psicológica, física, social ou virtual. A identificação do problema, contudo, exige uma vigilância atenta dos responsáveis. Quando atravessado pelo preconceito (homofobia ou transfobia) contra pessoas LGBTQIA+, ele ganha uma camada ainda mais profunda: a tentativa de ensinar, desde cedo, que determinados corpos, afetos e modos de existir precisam ser escondidos.
Segundo Andreya Arruda, psicóloga e coordenadora do serviço psicossocial da Defensoria, as vítimas costumam apresentar sinais claros de sofrimento. “As vítimas se sentem envergonhadas ou intimidadas. Por isso, é muito importante os pais estarem atentos. Mudanças de padrão de comportamento, isolamento e tristeza podem ser sinais de alerta”, pontua a profissional.
A orientação é que a família tenha um diálogo aberto sobre o assunto em casa, uma vez que a vítima costuma carregar vergonha e medo. “Ao confirmar a causa das mudanças de comportamento e, se estas estiverem relacionadas a situações que envolvam bullying, o caminho não deve ser o incentivo ao revide, e sim comunicar o problema à escola e, em casos de danos expressivos à saúde mental, buscar amparo psicológico”, orienta a supervisora.
No caso de Matheus, as violências da infância atravessaram a vida adulta. Durante muitos anos, ele sentiu que precisava controlar gestos, voz, alegria, roupa, modo de andar e até a forma de segurar um copo. A espontaneidade foi sendo reduzida para caber em um mundo que exigia contenção.
“Se alguém vier me dar um presente, eu não vou saber demonstrar alegria, porque isso me foi tirado. A sensação que eu tenho é essa, que essa fase da essência foi esvaziada. A minha luta hoje é para tentar recuperar e ver o que ainda é possível salvar dessa minha essência. Porque a todo momento a gente escuta: não pode chorar, não pode ficar muito feliz. Você não pode pegar o copo desse jeito, não pode se vestir assim nem andar dessa maneira”, diz.
Até se aceitar demora. Matheus lembra quão doloroso foi este percurso. “Por mais que eu já tivesse leitura sobre o movimento LGBTQIA+, fosse aliado, soubesse racionalmente que não era só uma fase, mas uma identidade, eu ainda queria acreditar dentro de mim que não era daquele jeito, até porque tinha passado anos da minha história vivendo uma vida que não era minha, me relacionando e me forçando a ter relacionamentos afetivos com pessoas com as quais eu não tinha atração”, relembra.
Mas quem pensa que é simples, engana-se. Ainda é difícil. “Como vivi uma vida inteira me escondendo, cresci com a sensação de que eu era uma fraude, porque meus pais falavam: ‘ah, o Matheus é um filho perfeito, um bom aluno’ para os amigos deles. E eu sempre pensava: ‘é, eles falam isso porque não sabem quem eu sou, não sabem a minha sexualidade’. Então eu cresci pensando que era uma fraude e que não sou aquilo que as pessoas achavam. E isso, de certa forma, ainda molda a minha forma de me ver e posicionar-me no mundo”, reconhece.
Esse sentimento chegou a interferir em um sonho antigo: ser defensor público. “Eu não conseguia estudar para concurso, apesar de o sonho da minha vida ser a Defensoria Pública, porque eu pensava: ‘Nunca vou ocupar esse lugar. Esse espaço não é para mim’”.
A superação veio aos poucos, com decisão e disciplina. No fim de 2021, Matheus deixou as turmas em que dava aula, entregou os diários de classe e, no dia seguinte, começou a estudar. A primeira prova foi para a Defensoria Pública do Pará. Ele foi aprovado em primeiro lugar.
De lá em diante, a porta do armário também se abriu para uma vida que ele ainda estava começando a se permitir viver. “Apenas com 28 anos eu me permiti viver isso. Poucos meses depois, encontrei meu atual companheiro, o Flávio Camargo. Estamos juntos desde 2019”, conta.
Visibilidade como reparação
Para o defensor público, falar de orgulho é também falar de reparação. “É por isso que é importante essa questão da visibilidade, de a gente falar de orgulho nesse mês, porque enquanto permanecermos escondidos seremos incompreendidos. Não foi com a minha afirmação que a minha família me aceitou. Foi com a afirmação de outras pessoas. Assim, eles viram como isso pode ser natural e como os amigos não encararam como um fracasso, como uma vergonha, e que eles poderiam encarar dessa forma também. Hoje, o assunto não é mais um tabu para eles”, afirma.
A visibilidade, diz ele, não é um fim em si mesma. É um caminho para que a existência seja compreendida sem medo e sem exceção. “Eu sou visto para ser compreendido. Eu sou visto para que as pessoas não só saibam que eu existo, mas percebam que sou como elas, que também tenho sonhos, tenho propósito. E que a minha sexualidade é só um dos traços da minha personalidade, um dos componentes do meu ser.”
Por isso, o orgulho não começa no grito, mas na possibilidade de romper o silêncio.
“É por isso que gritamos. É por isso que saímos às ruas. É por isso que a gente quer visibilidade, quer orgulho. Não é para recuperar o nosso tempo perdido, porque o tempo não vai mais voltar, mas é para que nenhum mais dos nossos tenha de passar por isso”
Hoje, Matheus entende que sua presença também comunica. No trabalho, na família, no casamento e nos espaços de poder, ele sabe abrir caminho. “Nosso corpo é a nossa bandeira. Eu sou uma bandeira onde quer que eu esteja, no meu trabalho, nas minhas relações pessoais, na minha relação familiar. Eu sou uma bandeira para todo mundo: eu posso ter uma família”, finaliza.

