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A tesoura do desejo: Isabel e a liberdade não aceita

A tesoura do desejo: Isabel e a liberdade não aceita

Publicado em
Texto: Bianca Felippsen
Arte: Diogo Braga

“Foi a tesoura do desejo, desejo mesmo de mudar.” Na canção de Alceu Valença, cortar os cabelos é um gesto de transformação. Na história de Isabel Maria da Conceição, no início do século XX, esse mesmo gesto foi considerado uma afronta. Não foram os cabelos cortados que determinaram seu destino, mas a violência de um homem que acreditava ter poder sobre o corpo e seus desejos.

Nascida em 1901, em Campo Grande, como então se chamava Guaraciaba do Norte, Isabel Maria casou-se com Raimundo Nonato da Silva, conhecido como Raimundo Passarinho. O casal teve um único filho, Antônio. Isabel é descrita nas narrativas locais como uma mulher bonita, de cabelos longos e que despertava ciúmes no marido.

Segundo as mulheres idosas entrevistadas para compreender esta narrativa, em 20 de outubro de 1929, Isabel, Raimundo e o filho Antônio seguiam para uma localidade chamada hoje de Sussuanha. Durante uma discussão, Isabel foi atingida por seis golpes de facão e, diante da criança, com 3 anos, é lançada de um penhasco.

O corpo ficou preso a um galho, na horizontal, em uma área de difícil acesso na serra da Ibiapaba entre Guaraciaba do Norte e Reriutaba. A árvore ainda permanece em pé, ao lado da capela erguida em sua homenagem. Uma das testemunhas ouvidas no processo descreveu a dificuldade para alcançar o local: “Era um despenhadeiro medonho e fui me guiando pelas árvores”. Raimundo Passarinho foi preso.

Os documentos judiciais da época, porém, revelam mais do que as circunstâncias do crime. Mostram como, mesmo depois de morta, Isabel continuou sendo julgada. Raimundo deslocou o foco da própria conduta e a narrativa se concentra na tentativa de encontrar um motivo. Em 19 de dezembro de 1932, diante do juiz, afirmou que “tinha sido forçado a cometê-lo em vista dos maus-tratos que lhe eram infligidos pela sua mulher, como desprezo e vida desregrada de sambas em sambas”.

A alegação revela uma inversão que atravessa a história de muitas mulheres assassinadas: o agressor confessa o crime, mas a vítima é colocada no banco dos réus. Mesmo diante da brutalidade, os registros judiciais voltam-se para a vida privada de Isabel. Em um dos documentos, aparece a afirmação de uma testemunha de que “Isabel não tinha bons costumes, (…) era, por assim dizer, uma mulher de vida alegre”.

A desqualificação da vítima vem para tentar justificar aquilo que não pode ser justificado: a decisão de um homem de matar a mulher, porque ela cortou os cabelos.  Enquanto os documentos oficiais lançam suspeitas sobre Isabel, a memória popular percorre outro caminho. No lugar onde seu corpo foi encontrado, moradores ergueram uma cruz e, depois, uma capela. A mulher passa a ser procurada por pessoas que lhe atribuem graças.

A catequista Maura Nascimento, de 63 anos, é uma das guardiãs dessa memória. Ela conta que já alcançou graças por intermédio da ‘Alma de Isabel’. “Milagre mesmo foi só um. Em 2005, em benefício da minha irmã. Pedi que não acontecesse nada com o filho dela que estava em risco e não é que deu certo?”, lembra. 

Maura também se recorda de outra graça. “Eu estava indo com eles rezar um terço pra pagar a promessa de uma mulher. Quando eu ia descendo a ladeira, menina de Deus, meu joelho parou, sabe? Aí eu parei e disse assim: ‘E agora, Isabel, como é que eu vou?’. Apelei de novo pra alma santa. Aí fiquei numa das casas, sentada. E disse assim: ‘E agora, Isabel, como é que eu vou andar desse jeito?’. Daqui a pouco passou e eu continuei a caminhada”, recorda.

Hoje, a Capela de Isabel Maria acolhe fotografias, ex-votos, bilhetes e objetos deixados em agradecimento. Está um pouco esquecida, meio suja e sem manutenção, desde a morte de Antônio, filho de Isabel, que ainda cuidava do lugar.

Mas chama atenção o nome de casais grafados de carvão ou caneta nas paredes. Segundo as crenças, Isabel pode interceder junto a Deus por proteção nas relações afetivas. A mulher que teve sua liberdade contestada pelo marido passou a ser procurada por outras mulheres. Até mesmo Maria da Penha esteve por lá, pelos idos ano 2000, quando Isabel Maria passou a conhecida como “a santa das mulheres em situação de violência”.

“Eu começo a ver a simbologia que a Isabel Maria trouxe. Ser a mulher santificada em torno da discussão da Lei Maria da Penha. Ela é tida como mulher santa, mas uma santa que protege as mulheres espancadas e as mulheres traídas. É isso que tem na oração dela. Isso que aparece nos jornais. É isso que as mulheres que eu pesquisei em relação a isso passam a pedir proteção em relação à questão da violência”, explica a professora e pesquisadora, Daniele Alves. 

Isabel Maria não escolheu este lugar. Foi assassinada. A santidade popular atribuída a ela não deve encobrir essa violência, mas pode ajudar a nomeá-la. Quase um século depois, sua história ainda pergunta: por que a liberdade feminina continua sendo tratada como ameaça ou desobediência? 

Quem a matou foi um homem que não admitia que ela mesma pudesse decidir sobre si mesma.