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Regina de Fátima: para que a cidade não esqueça a menina 

Regina de Fátima: para que a cidade não esqueça a menina 

Publicado em
Texto: KAMILLA VASCONCELOS
Arte: Diogo BRAGA

Quando quem precisa proteger é quem mata, nem a fé consegue explicar a dor. Em uma sexta-feira, 1º de outubro de 1982, os sonhos de uma jovem menina foram ceifados brutalmente. Mais uma. Em uma cidade que ainda não conhecia a palavra feminicídio, mas já aprendeu a conviver com este tipo de tragédia.

A cidade Fortaleza que, aos poucos, se acostuma e banaliza a dor. Não há cruzeiros para guardar a memória de todas as mulheres. Nem capelas para lembrar de cada uma delas. Há a memória. Aquela que nem o tempo é capaz de apagar. A memória de quem tem fé. E fé não precisa ser materializada, nem provada. Apenas sentida.

A escola que guardava o futuro foi caminho sem volta. As cadeiras, os livros foram tirados de Regina. Ela é arrancada da vida antes mesmo de descobrir tudo o que queria e poderia ser. 

Regina de Fátima foi sequestrada, estuprada e morta pelo próprio tio, Cosme Ribeiro, de 25 anos. Assassino confesso, como quem não temia punição. No dia 30 de setembro de 1982, ele a buscou no Colégio Marechal Juarez Távora, no Centro de Fortaleza, onde Regina cursava a 6ª série. Horas depois, o corpo dela foi encontrado em um terreno baldio, no então bairro Castelão, em Fortaleza. Os jornais da época registraram a cena com a dureza dos fatos: “apresentando ferimentos na testa, rosto deformado, sinais de violência nos órgãos sexuais e alguns dentes quebrados”.

A revolta, naquele instante, era o que restava à cidade que clamava por justiça. Depois, como registrou um dos periódicos da época, “transformaram o horror em piedade”. No local, foi erguida uma pequena capela. Cruz, flores, velas, orações… Fé. Milagres? Alguns contam que sim. E a ela atribuem graças. “Eu acendo velas, eu peço e falo sobre mim. E eu alcancei. Eu morava na beirada do rio e, quando me apeguei a Regina de Fátima, consegui uma casa”, revela Liozimar, devota desde os tempos da primeira capela.

Apesar da fé, a história de Regina não podia cair no esquecimento da Justiça dos homens. Cosme Ribeiro cumpriu pena no antigo Instituto Pensal Professor Paulo Sarasate (IPPS) e, após alguns anos em regime fechado, recebeu liberdade condicional. Em seguida, teve a pena extinta. A revolta, é claro, não foi silenciada. Em manchetes de jornais, o questionamento: “cadê a Justiça?”.

Coluna da jornalista Regina Marshall, no Jornal Diário do Nordeste.

Assinada pela jornalista Regina Marshall, a notícia da impunidade foi escancarada em 21 de dezembro de 1988. Seis anos após a barbárie. A dor tenta explicar o inexplicável e se transforma em indignação, mobilização para que nenhuma violência fique sem resposta. Os fiéis fazem questão de dizer: a devoção não anula a busca por justiça.

A morte da menina Regina de Fátima foi também uma resposta a Dona Elizinha, uma das idosas devotas do bairro. Ela teve um sonho de construir uma capela em homenagem a Nossa Senhora da Consolação. O sonho se concretizou graças a um sinal. Na missa de sétimo dia de Regina de Fátima, o sonho fez sentido. Era aquele local o cenário do sonho. A vegetação desenhava algo semelhante a uma pequena capela. Ali, foi erguido o santuário, em 1986.

A história de Regina se confunde com a de Nossa Senhora da Consolação. No mesmo espaço, lado a lado, convivem a devoção à santa e a crença na menina milagreira. Uma da Igreja. Outra do povo que crê. Uma não se sobrepõe à outra. O que nasce da fé popular não depende de reconhecimento para existir.

Embora o pequeno santuário ao lado da igreja tenha desaparecido com o tempo, Regina permanece viva dos moradores do bairro e nomeia até uma rua. Também tem um singelo monumento na entrada da igreja. Em sua reza, um pedido atravessa os anos: “Jesus Cristo, meu Redentor do mundo, fazei que meu coração não se lance aos leões, e sim ao vosso amparo sagrado, que é o vosso Coração”. 

Rua que leva o nome de Regina de Fátima. Foto: Kamilla Vasconcelos

Diferentemente das histórias de devoção preservadas no interior, memórias como a de Regina vão se perdendo na capital que nunca dorme. Na Fortaleza que cresceu, se verticalizou e aprendeu a conviver sem memórias também é preciso guardar o que existe de imaginário coletivo e da fé. Não para transformar a violência em santidade, mas para impedir que a menina desapareça desta vida pela segunda vez.