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Menina Benigna, do martírio à devoção da primeira beata cearense

Menina Benigna, do martírio à devoção da primeira beata cearense

Publicado em
TEXTO: JULIANA BOMFIM
ARTE: DIOGO BRAGA

Era uma sexta-feira, dia 24 de outubro de 1941, por volta das quatro horas da tarde, quando Benigna Cardoso da Silva voltou da escola e foi buscar água na cacimba perto de casa. O que parecia ser apenas mais uma tarefa doméstica da jovem transformou-se em tragédia e marcou para sempre a história do Cariri. 

Benigna tinha 13 anos recém completados. Era franzina, com apenas 1,41 metro de altura, pele morena clara, rosto arredondado e queixo afinado. Tinha olhos castanhos com leve estrabismo, e cabelos longos ondulados repartidos ao meio.

De vestidinho vermelho com bolinhas brancas e pote de barro na cabeça, a menina foi surpreendida por Raul Alves Ribeiro, de 17 anos, que, à espreita, escondido na vegetação. Eles eram colegas de uma classe multisseriada, modelo de ensino em que um mesmo professor lecionava para alunos de diferentes séries. Algo muito comum na época, sobretudo em regiões rurais, como os distritos de Inhumas, onde nasceu Benigna, e Oitis, onde morava Raul, ambos a poucos quilômetros da cidade de Santana do Cariri. 

A abordagem era uma tentativa de estupro. Enfurecido, Raul sacou o facão e deu início a uma sequência de golpes. Já no primeiro, Benigna teve três dedos da mão direita cortados, evidenciando sua tentativa de defesa. O segundo atingiu a testa e o terceiro, as costas, alcançando os rins. O quarto golpe foi fatal, atingiu o pescoço, quase decapitando a vítima. 

O assassinato causou grande comoção entre os moradores de Santana do Cariri e foi o desfecho de uma perseguição iniciada quando Benigna tinha ainda 12 anos. Incomodada com as constantes investidas, chegou a buscar orientação com o padre Cristiano Coelho, pároco da cidade. Foi aconselhada a resistir, mudar de escola e evitar o convívio diário. Para fortalecer a fé, recebeu um livro ilustrado sobre histórias bíblicas.

Mas, a cada recusa, Raul voltava mais violento. A tragédia apresentava uma dinâmica que, décadas depois, seria reconhecida pela justiça brasileira como feminicídio, o assassinato de mulheres em razão da condição de gênero. À época, por ser menor de idade, Raul cumpriu a medida socioeducativa. Posteriormente, mudou-se para São Paulo e só retornou à cidade décadas depois.

Já Benigna tornou-se símbolo de pureza e heroína da castidade. Padre Cristiano Coelho escreveu em sua certidão de batismo: “Morreu martirizada, às 4 horas da tarde do dia 24 de outubro de 1941, no Sítio Oiti. Heroína da Castidade. Que sua santa alma converta a freguesia e sirva de proteção às crianças e às famílias da Paróquia. São os votos que faço à nossa Santinha”.

“Há diferentes narrativas em torno desse episódio. As narrativas jurídicas e documentais apontam que Benigna foi violentada sexualmente e assassinada porque teria ameaçado contar o que aconteceu. Relatam ainda que ela tentou fugir, demonstrando que lutava pela própria vida. Já a narrativa religiosa católica sustenta que Benigna resistiu até o fim em defesa de sua castidade. A partir daí, passou a ser considerada santa, principalmente no âmbito da religiosidade popular. Tanto que, hoje, é reconhecida como Heroína da Castidade e Mártir da Pureza.” afirma o pesquisador Joedson Kelvin Felix de Oliveira.

Não demorou para que o local onde foi morta virasse ponto de visitação, pedindo a sua intercessão para alcançar graças. Raul Alves Ribeiro, o próprio assassino, foi ao local cerca de 50 anos depois da tragédia. Afirmou ter voltado para rezar e pedir perdão à jovem. Segundo seu relato, passou a recorrer à intercessão de Benigna em momentos de aflição e atribuiu graças. Ao relembrar o crime, afirmou que agiu em um momento de loucura e reconheceu a virtuosidade da vítima.

A devoção à menina Benigna permaneceu, por mais de 80 anos, restrita ao campo da religiosidade popular. O Santuário-Memorial de Benigna, inaugurado em 24 de outubro de 2005, nasceu da mobilização da própria comunidade, que ergueu o espaço em regime de mutirão. No local, passaram a ser expostos, em redomas de vidro, o pote que Benigna carregava, seu vestido, o batistério e duas esculturas em madeira que retratam a cena de seu martírio, esculpidas pelo devoto e incentivador da causa Francisco Agostinho Pereira 

Apenas em 2011, a Diocese de Crato iniciou as pesquisas para a abertura de seu processo de beatificação. No ano seguinte, seus restos mortais foram trasladados para a Igreja Matriz de Santana do Cariri. Em 2013, recebeu o título de Serva de Deus e, em outubro de 2019, o Papa Francisco reconheceu seu martírio, abrindo caminho para a beatificação. Em 2019, foi instituído o dia 24 de outubro como o Dia de Combate ao Feminicídio no Ceará.

Em 24 de outubro de 2022, diante de 60 mil pessoas, Benigna tornou-se a primeira beata do Ceará e a quarta mártir do Brasil.  Na cidade foi construído o Complexo Benigna Cardoso, que reúne um santuário, uma estátua com mais de 20 metros de altura, estacionamento e altar para missas campais, com capacidade para receber mais de 100 mil devotos. 

A pernambucana Leila Patrícia de Vasconcelos, que trabalha há dez anos com a venda de artigos relacionados à menina Benigna, destaca o impacto da peregrinação na economia local. “Nesses dez anos, o movimento aumentou bastante. Primeiro, com a beatificação; depois, com a inauguração do complexo. Hoje, são muitos visitantes que vêm até a cidade, e isso gera renda e traz benefícios”, ressalta.