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Maria Alice: uma linda jovem no meio dos anjinhos

Maria Alice: uma linda jovem no meio dos anjinhos

Publicado em
TEXTO: ROSE SERAFIM
ARTE: DIOGO BRAGA

Maria Alice era uma jovem cuja procedência carece de identificação: ora do Pará, ora do Rio Grande do Norte para o Ceará. Era década de 1920, quando veio em busca de trabalho numa plantação de arroz no distrito de Serrote, em São Gonçalo do Amarante. Os moradores do lugar contam que ela foi trazida junto com a mãe e outras famílias pelos novos proprietários de uma grande faixa de terra recém-adquirida no lugar. 

Descrita como muito bonita, de cabelos negros longos e pele parda, chamava atenção não só pela aparência, mas também pela gentileza dedicada a quem a conhecia. Levava uma vida muito simples ao lado da mãe. Saía todos os dias para a lida com outras mulheres e homens e frequentava a missa nos fins de semana.

A moça chamou a atenção de Domingos Madaleno, um homem que também não teria raízes no lugar. Por muito tempo, ele insistiu em uma proximidade com Maria Alice, que o rejeitou reiteradamente, como explicou a falecida Dona Modesta, em 2012, para a jornalista Ivna dos Santos de Matos. ”Ele vivia atentando ela”, simplificou. Já Luiza Félix contou à então pesquisadora que a vítima chegava a desistir de ir aos lugares com medo de encontrar com ele. “Aonde ela ia ele seguia atrás. Se ela chegava à igreja, ele chegava do lado. Ela vendo aquilo ia embora, sendo que muitas vezes desistia de ir para os lugares com medo dele”.
Teria sido em 24 de abril de 1924, o dia em que Maria Alice saiu com um grupo de mulheres para a roça e foi abordada por Domingos Madaleno pela última vez. Ele teria dito para ela escolher entre viver ou ceder aos caprichos dele. Ela não cedeu e foi golpeada com uma faca, tendo desfalecido em um pé de sabiá. 

O homem fugiu. Ela ainda teria sido encontrada nos últimos momentos de vida, tendo tido tempo suficiente, segundo a narrativa oral, para dizer que perdoava o algoz pelo mal feito. Essa última fala seria seu primeiro sinal de santidade.

Depois da morte que abalou profundamente a comunidade, uma pessoa sonhou com Maria Alice dizendo que estava bem no céu, rodeada por anjinhos. Os moradores entenderam aquilo como um sinal divino e passaram a enterrar os bebês que morrem antes de serem batizados em volta da cruz que marca o ponto de martírio da santa popular.

“Sempre conheci a história da Maria Alice como uma alma milagrosa”, conta o professor Francisco Evandro, natural do distrito de Serrote. Ele conta que o cemitério ficava aberto, até que a população decide cercar com um muro e construir uma capela dedicada à santinha. Hoje são mais de 50 cruzes em volta do pequeno santuário.

“Eu tenho um anjinho sepultado aqui também que faleceu em 2018, na época de nascimento, foi para a incubadora e tudo, mas não sobreviveu. Toda vez que eu venho aqui, sinto como se estivesse com ele. A gente sente que ficou aqui um pedaço da gente”, conta o professor.