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Maria de Bil: entre a violência, a fé e a memória de uma mulher santificada pelo povo no Ceará

Maria de Bil: entre a violência, a fé e a memória de uma mulher santificada pelo povo no Ceará

Publicado em
TEXTO: DEBORAH DUARTE
ARTE: DIOGO BRAGA

Um século depois de ser assassinada pelo ex-marido, Maria Antônia da Conceição permanece viva na memória de Várzea Alegre. A história da mulher grávida, mãe de dois filhos e vítima de feminicídio transformou-se em uma das mais conhecidas manifestações de devoção popular do município do Cariri cearense.

Era 11 de março de 1926 quando a vida de Maria Antônia da Conceição foi interrompida pela violência. Ela foi assassinada pelo ex-marido, Severino Domingos da Silva, conhecido como Bil. Sua história, recontada pela oralidade, dá conta de que o relacionamento chegou ao fim depois que Maria descobriu que o marido mantinha uma relação com sua irmã, Madalena. Diante da descoberta, ela decidiu pela separação e voltou para a casa do pai.

Para Bil, porém, a decisão de Maria teria sido entendida como uma afronta. Ele passou a persegui-la. Maria caminhava acompanhada de duas amigas para levar o almoço ao pai, que trabalhava na roça. No alto da Serra do Gravié (também referida em registros históricos como Serrote da Charneca), em Várzea Alegre, ela foi surpreendida pelo ex-marido. Ali, teria sido atingida por golpes de faca. Uma contradição acompanha essa memória: Maria, a mulher vítima da violência, é conhecida pelo nome do homem que a matou, Maria de Bil.

Infelizmente, não existem registros fotográficos conhecidos de Maria. Os relatos a descrevem como uma mulher baixa, de cabelos pretos e longos. Em 1922, quatro anos antes de sua morte, ela havia se casado com Bil em uma cerimônia coletiva. Da união nasceram Nercília e José. Quando foi assassinada, Maria estava grávida do terceiro filho. A violência doméstica, no entanto, vai além do triste desfecho. Há relatos de que Bil teria mutilado o corpo de Maria e o deixado sem roupas. Este martírio pode ser interpretado por muitos estudiosos como fundamental para sua santificação popular.

Também surgiram, ao longo do tempo, histórias que tentavam explicar o destino do assassino. Uma delas dizia que ele teria feito um pacto para não ser encontrado, transformando Bil em uma figura de assombração: um lobisomem que ainda rondava a serra, enquanto seus gemidos ecoam pela região.

Se Bil foi transformado em personagem do medo, Maria ocupou o lugar oposto no imaginário popular. Com o passar dos anos, moradores passaram a atribuir graças à sua intercessão. O pai de Maria de Bil pôs uma cruz no local exato em que ela foi assassinada. E, no dia 20 de janeiro de 1957, foi construída a capela no local do crime por José Alves de Oliveira, conhecido como Zé Pretinho.

Pedidos, promessas e agradecimentos foram incorporados à devoção que se consolidou em torno de seu nome. Em março, moradores e devotos participam da tradicional Caminhada à Capela de Maria de Bil, uma romaria que se tornou parte da cultura de Várzea Alegre.

Em 2026, cem anos depois do feminicídio, a caminhada ganhou uma dimensão ainda mais simbólica. Cerca de 2.500 pessoas participaram da romaria, deixando a cidade ainda de madrugada para subir a serra a pé. Pelo caminho, rezam o terço e seguem até o local da capela.

“A partir do momento que ergueram a capela, a fé da população foi aumentando e as pessoas começaram a fazer promessas, alunos que faziam promessas para tirar nota boa nas provas, levavam as provas, outros levavam fotos de pessoas, e isso foi crescendo”, destaca a secretária de Cultura e Turismo de Várzea Alegre, Antônia Oliveira.

Maria de Bil continua sendo lembrada como um episódio que expõe uma lógica de violência contra as mulheres que ainda encontra correspondência no presente.

Há, nessa história, uma mulher que existia antes do crime e que, muitas vezes, acaba escondida pela narrativa sobre sua morte. Maria Antônia da Conceição era filha, irmã, esposa e mãe. Estava grávida, cuidava dos filhos e ajudava a família. Tinha relações, desejos, escolhas e uma vida que não se resumia à violência sofrida.

No entanto, a história popular acabou incorporando seu nome ao do assassino. A própria Secretaria de Cultura e Turismo de Várzea Alegre já recebeu propostas para que a capela dedicada à santa popular passe a ser identificada pelo nome verdadeiro da vítima: Maria Antônia da Conceição.

A mudança, entretanto, não é simples. Depois de décadas de tradição, Maria de Bil tornou-se uma denominação profundamente enraizada na memória coletiva. “O nome dela é Maria Antônia da Conceição, mas a gente não consegue mais separar ela do assassino. Sempre que falarmos de Maria estaremos enaltecendo também Bil, porque a falamos ‘Capela Maria de Bil’, ‘Romaria à Capela Maria de Bil’, mas, infelizmente, é uma questão histórica e cultural que a gente não consegue mais mudar”, lamenta a secretária.