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Maria Marina: A mocinha que queria estudar

Maria Marina: A mocinha que queria estudar

Publicado em
TEXTO: rose serafim
ARTE: DIOGO BRAGA

Era o ano de 1958. Uma das piores secas já registradas na história do Brasil assolava o semiárido brasileiro. Em Lavras da Mangabeira, no Cariri cearense, Maria Marina Conceição, tinha entre 14 ou 15 anos e sonhava com um dia poder estudar. De origem humilde, vivia na companhia do pai, Coronato, da mãe, Maria Campina, além da irmã menor.

Os moradores do Sítio Varas, onde viveu e foi assassinada, guardam memória dela na beira do açude usando o xerém de milho e uma armadilha para capturar piabas, para assar na brasa e comer com farinha. 

Em certa altura daquele ano, chegou ao lugar um homem apelidado de João Cabeludo, que recebeu a alcunha por seus cabelos compridos. Ele dizia ser pessoa de posses na Paraíba. Ganhou a confiança da família de Marina e pediu uma das filhas para levar à companhia de uma esposa que ele dizia existir. Prometeu casa, comida, roupa e escola e os pais autorizaram a ida da filha mais velha.

Não era incomum que famílias humildes deixassem suas filhas serem levadas para trabalhar na casa de família com a promessa de estudo e melhoria de vida, sobretudo numa época em que as escolas eram distantes da zona rural e quando faltava comida na mesa. Um tempo onde as leis trabalhistas pareciam rarear e se valia de mão de obra barata e precarizada sem nenhuma fiscalização ou direito assegurado.

João não esperou o Sol nascer e saiu ainda de madrugada com Marina para pegar um transporte. No meio do caminho, fez um desvio para abordar a menina. Se serviu da adolescente e abandonou um corpo destruído. Dias depois, Marina foi encontrada por meninos que buscavam cabras perdidas. O corpo dela sendo comido por urubus. A língua cortada fora, um dos seios e a vagina tinham marcas de corte, segundo os relatos dos moradores. Foi reconhecida pelas sandálias e pelo vestido.

Foi um caso que abalou tanto que, o pessoal aqui, quando dava seis horas da noite, batiam as portas com medo do João Cabeludo. Era o pessoal assombrado, assustado, né? Foi um absurdo”, conta o seu Alencar, de 80 anos.

A história contada é de que Maria Marina foi enterrada em cova rasa e não teve caixão. O corpo da jovem foi enrolado em talas de madeira no mesmo lugar em que ela foi morta.  Depois de muitos anos tendo graças atribuídas, ganhou a primeira capela, mas o terreno foi reinvindicado. Construíram um segundo lugar sagrado bem ao lado, no terreno vizinho. Hoje ela tem a cruz e duas capelas em sua homenagem marcando o local do martírio.

As pessoas já não se lembram mais da sua aparência, se era branca, parda ou negra, cabelos de que cor e se eram lisos ou enrolados. Marina era uma adolescente. Estaria idosa hoje se tivesse tido a oportunidade de viver mais. Ela não tem foto registrada, não tem lápide. E se tivesse tivesse, não saberiam dizer a data exata em que nasceu ou morreu.

Seu Alencar se valeu de uma oração à Marina para conseguir tratamento de uma eczena na perna. “Foi um tio dela que fez essa prece para mim. Meus pés eram uma chaga só”. Já a esposa dele, dona Josefa, de 72 anos, pediu para conseguir dar de mamar a uma das filhas que não pegava o peito. “Me peguei com Santa Marina, aí eu botei o nome da minha filha de Marina. Aí a menina pegou no peito”.