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Maria Filomena tinha vocação para ser freira

Maria Filomena tinha vocação para ser freira

Publicado em
TEXTO: rose serafim
ARTE: DIOGO BRAGA

Maria Filomena de Lacerda nasceu em 1925, em Mauriti, no Cariri cearense. Vinda de uma família mais abastada, teve a oportunidade de estudar, coisa que a maioria das mulheres de sua época não alcançavam. Ainda jovem, manifestou o desejo de tornar-se freira, quando estudava no Colégio Santa Teresa de Jesus, no Crato.

Num dos retornos à casa da família, começou um namoro com o primo legítimo Manoel Nazário de Lacerda e decidiram casar. Ela já tinha 25 anos, idade que a sociedade considerava avançada para o enlace, naquela época

A vida de esposa não afastou Filomena dos deveres católicos. Carregava consigo um devocionário de Santa Teresa de Jesus, era frequentadora assídua das missas, usava preto todo dia 20 de cada mês, em alusão a Padre Cícero, e dava aulas de catecismo para as crianças da vizinhança todos os domingos, fosse na casa de vizinhos ou embaixo dos pés de juá.

Por outro lado, os filhos do matrimônio nunca vieram. E as traições de Nazário começaram a ficar evidentes. Aos conhecidos, ele alegava que vivia “como irmão” com a mulher, à pedido da própria. Que ela era adoecida e não podia gerar filhos com ele por questões de sangue. A professora de história e pesquisadora Welinaidia Generoso investigou a história de Maria Filomena e encontrou uma carta da finada enviada à mãe em que dizer “viver um calvário” no casamento. O documento é de maio de 1975, ano em que foi selado seu destino selado por um crime bárbaro.

“Filomena termina a carta pedindo para que a mãe e as irmãs lembrem dela. O pouco que sabemos sobre Filomena nos revela uma mulher que mesmo vindo de uma família de boas condições sofreu duras violências no matrimônio, não só a violência física, mas do abandono. Ao que parece, a vida religiosa se tornou um refúgio para Filomena, que não deixava transparecer com palavras diretas seu sofrimento”, escreveu Generoso na tese de mestrado “Tramas da Morte, Caminhos da Salvação: A Construção da Santidade de Filomena Lacerda” , na Universidade Estadual do Ceará. 

O caso mais conhecido de Manoel Nazário, na época já com mais de 50 anos de idade, era com Antônia, uma moça de 18 anos que, além de parente do casal, residia próximo à casa deles, no Sítio Pereiros. É com ela que o marido planeja e executa a morte da esposa. 

Na madrugada do dia 21 de julho de 1975, enquanto dormia numa rede, Maria Filomena foi abordada e morta a facadas pela dupla. Os dois ainda tentaram criar álibis para fugir da acusação, mas a jovem amante acaba assumindo a responsabilidade parcial pelo ocorrido.

“Quem vai detalhar o crime vai ser a amante no seu depoimento. Ele não vai falar muita coisa não e ele vai jogar toda a culpa na amante. Ele vai dizer que foi seduzido por ela, que ela o convenceu de praticar o crime. Ele não vai assumir praticamente nada”, remonta Generoso. “Ainda estava escuro, ela estava deitada em uma rede e eles já a golpearam. E o que a amante vai dizer é que ele insistiu que ela a esfaqueasse. Ele vai dizer a seguinte frase: você não falou que você ia fazer? Agora é a hora. Então, ela esfaqueia Filomena no pescoço”.

A pesquisadora conta que, após ser descoberto, Manoel Nazário tenta alimentar a versão de que foi convencido pela mulher de 18 anos. Não funcionou. Os dois acabaram condenados e presos. Anos depois, o homem conseguiu liberdade condicional, mas morreu atropelado em Fortaleza.

A morte de uma mulher conhecidamente muito religiosa e em condições tão violentas, gerou forte comoção. O local do último suspiro de Filomena virou ponto de oração. Tempos depois, o próprio padre da cidade fez o primeiro testemunho de milagre. 

“O primeiro milagre vai surgir do Padre Argemiro Rolim de Oliveira, que era um padre na época muito próximo de Filomena em vida. Ele vai testemunhar em uma missa, que era a missa de morte, inclusive, da mãe dela, dizendo: eu passei por um sufoco, faltou gasolina no meu carro, era à noite e uma mulher, Filomena, apareceu para mim e me entregou um balde de gasolina. E isso vai dar maior digamos assim, credibilidade a essa devoção”, explica Generoso. 

Atualmente, o local de morte de Filomena deu lugar a uma capela em sua homenagem. Todo ano, no amanhecer do segundo domingo de julho, devotos saem em procissão da sede do município de Mauriti até o pequeno santuário no Sítio Pereiros. Lá realizam suas orações e compartilham um café da manhã comunitário. O percurso é o mesmo que era feito por Filomena nas idas à missas da Igreja de Mauriti.