Posso ajudar?
Posso ajudar?

Site da Defensoria Pública do Estado do Ceará

conteúdo

Mártir Francisca: a jovem que se tornou símbolo de fé em Aurora

Mártir Francisca: a jovem que se tornou símbolo de fé em Aurora

Publicado em
TEXTO e fotos: DEBORAH DUARTE
ILUSTRAÇÃO: DIOGO BRAGA

Era 9 de janeiro de 1958, a vida de Francisca Augusta da Silva foi interrompida de forma brutal. Aos 17 anos, a jovem voltava dos festejos de São Sebastião, na localidade de Várzea da Conta, em Aurora, no Cariri cearense, quando foi surpreendida pelo ex-noivo, Francisco Ferreira Barnabé, conhecido como Chico Belo. Oito meses antes, o noivado havia sido desfeito por decisão do pai da jovem. O rapaz não aceitava que Francisca pudesse seguir a vida e se casar com outro homem.

No caminho, Chico Belo atacou a jovem com onze golpes de faca.  Testemunhas teriam visto Francisca se levantar depois dos primeiros ataques e tentar fugir, mas ela não conseguiu escapar. A violência daquele dia ficou registrada no processo criminal e, ao longo das décadas, também na memória popular das pessoas de Aurora.

No lugar onde Francisca caiu, o pai, Manoel Pedro Ferreira ergueu um cruzeiro antes de deixar a região e se mudar para Assaré. A cruz passou a ser um ponto de oração e, com o tempo, ganhou ao redor de si uma tradição que atravessaria gerações. Vieram as promessas, os ex-votos, os relatos de graças alcançadas e, posteriormente, a construção de uma pequena capela.

Atualmente, todo dia 9 de cada mês, devotos percorrem o caminho até o local para rezar, agradecer e pedir proteção. A jovem, morta aos 17 anos, passou a ser conhecida como Mártir Francisca, e sua memória  permanece viva na devoção de quem chega à pequena capela.

“Valei-me, Mártir Francisca, pelas onze facadas que lhe fizeram tombar e pela juventude que lhe foi roubada… Valei-me!”

A oração, repetida entre os devotos, ajuda a traduzir a maneira como a comunidade transformou a lembrança de uma violência em memória coletiva de fé. A história de Francisca não permaneceu apenas nos documentos de um processo criminal de quase sete décadas atrás. Ela ganhou espaço nas orações, nas promessas e nas narrativas passadas de uma geração para outra.

A imagem que hoje representa Francisca foi esculpida em Juazeiro do Norte, por encomenda do jornalista e pesquisador Gilmar de Carvalho. É diante dela que muitos devotos chegam para cumprir promessas e agradecer por pedidos que acreditam ter sido atendidos. A história dela também está ligada à trajetória de um dos artesãos que ajudaram a preservar, em madeira, a cultura dos ex-votos no Ceará.

Francisco Gildamir, conhecido como Mestre Gil, nasceu em 1958, no mesmo ano em que Francisca foi assassinada. Ainda criança, começou a observar o trabalho desenvolvido dentro da serraria da família. O avô, segundo ele, tinha especial habilidade para produzir peças mais sofisticadas, curvas e detalhadas.

Foi observando o avô trabalhar que Gil aprendeu o ofício. Autodidata, começou a esculpir peças de madeira ainda aos sete anos, depois de conhecer os ex-votos oferecidos pelos devotos de Mártir Francisca. As primeiras esculturas eram representações de partes do corpo levadas pelos fiéis como forma de agradecimento por graças alcançadas.

Ainda menino encontrou na devoção à Mártir Francisca também o início de sua própria trajetória profissional. “Eu me considero escultor e devo isso a Mártir Francisca. Comecei fazendo pé, mão, olho. Ela morreu em 1958, no ano que nasci. Pra você ver, nessa época já começou a obrar milagre”, conta Mestre Gil.

O que começou como observação e aprendizado dentro da serraria transformou-se em profissão e em uma forma de manter viva uma tradição profundamente ligada à história de Aurora.

Nas mãos do artesão, a madeira ganhou a forma daquilo que os devotos desejavam agradecer: um pé que voltou a andar, uma mão que recuperou seus movimentos, um olho cuja visão teria sido restaurada. Cada ex-voto carrega, para quem a oferece, uma história particular de sofrimento, esperança e fé.

A história de Francisca Augusta também carrega as marcas de uma violência contra uma mulher que, quase sete décadas depois, ainda encontra eco na sociedade.

Chico Belo foi condenado a 24 anos de prisão e, após permanecer preso por cerca de 19 anos, deixou a prisão em 1977. Acabou morto posteriormente, durante uma briga.

Mas a história de Francisca tomou outro caminho. Em vez de desaparecer com o passar do tempo, seu nome passou a ser repetido nas orações e nas romarias. A lembrança da violência foi incorporada à devoção e ganhou uma dimensão própria na cultura popular do município.

É assim que, em Aurora, o dia 9 é um dia de encontro e oração.

Entre o cruzeiro erguido pelo pai, as promessas depositadas pelos fiéis, os ex-votos esculpidos em madeira e as orações que atravessam gerações, existe memória viva. A jovem que teve a juventude roubada tornou-se, para Aurora, a Mártir Francisca.