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Chacina do Curió terá novo julgamento para dois réus após anulação de veredito. Defensoria acompanha as famílias

Chacina do Curió terá novo julgamento para dois réus após anulação de veredito. Defensoria acompanha as famílias

Publicado em
TEXTO: DÉBORAH DUARTE
ARTE: DIOGO BRAGA

Dois réus do processo que apura a Chacina do Curió serão novamente julgados pelo Tribunal do Júri. José Wagner Silva de Souza e José Oliveira do Nascimento terão novo julgamento no dia 4 de novembro de 2026, às 9h, no Fórum Clóvis Beviláqua, em Fortaleza. A realização de um novo júri foi determinada pelo Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE), que, em decisão de 4 de agosto deste ano, anulou o julgamento anterior realizado para os dois réus.

A Defensoria Pública do Estado do Ceará acompanha o caso desde os primeiros momentos da Chacina do Curió e mantém atuação junto às famílias das vítimas por meio da Rede Acolhe, programa criado pela instituição justamente a partir da experiência vivenciada após a chacina. A iniciativa oferece atendimento jurídico e psicossocial e acompanha familiares ao longo da trajetória de busca por justiça e reparação. A equipe psicossocial da Defensoria também presta suporte multidisciplinar às mães e demais familiares, inclusive durante as sessões do Tribunal do Júri.

“A Defensoria Pública foi transformada por esse movimento de mães e hoje tem uma estrutura específica para essa atuação. Em 2015, a Defensoria Pública abriu as portas para recebê-las. Nós não tínhamos estrutura e não sabíamos como acolher essas mães. Elas nos ensinaram e construíram conosco esta atuação. Trouxeram sua dor e transformaram a atuação da Defensoria Pública com a criação da Rede Acolhe, a partir da sua força, da luta e do grito. Hoje, quase 11 anos depois, estamos aqui nesse ponto culminante de vários processos. Cada júri representa um passo na reparação histórica dessas famílias. Temos trabalhado de forma integrada com o Ministério Público e os movimentos sociais, garantindo que elas não estejam sozinhas neste processo tão doloroso”, destaca Leandro Bessa, subdefensor público geral.

A decisão que anulou o julgamento anterior foi tomada após recurso de apelação apresentado pelos advogados de defesa contra o resultado do júri. No Tribunal do Júri, vigora o princípio constitucional da soberania dos vereditos, segundo o qual a decisão dos jurados não pode ser simplesmente substituída pelo Tribunal de Justiça. Em determinadas hipóteses, contudo, quando o tribunal entende que a decisão dos jurados é contrária às provas dos autos, pode determinar a realização de um novo julgamento.

Foi o que ocorreu neste caso. No julgamento anterior, que reuniu oito réus, seis foram absolvidos, enquanto José Wagner Silva de Souza e José Oliveira do Nascimento foram condenados.  José Wagner foi absolvido dos crimes de homicídio e tentativa de homicídio e condenado apenas pelo crime de tortura. Já José Oliveira do Nascimento foi condenado a 210 anos de prisão pela prática de 18 crimes, entre eles homicídios, tentativas de homicídio e tortura.
Para a Defensoria Pública do Ceará, não há contradições nas condenações, uma vez que os jurados podem ter feito distinções a partir das provas produzidas em relação à participação individual de cada réu. O TJCE, entretanto, entendeu que o resultado do julgamento era contrário às provas dos autos e determinou a anulação do veredito, abrindo caminho para um novo julgamento. “A decisão do tribunal não representa uma condenação ou absolvição dos réus, mas a determinação para que um novo Conselho de Sentença analise o caso. No novo júri, caberá aos jurados avaliar novamente as provas e decidir pela condenação ou absolvição dos acusados”, destaca o defensor público Muniz Freire, responsável pelo atendimento às famílias das vítimas do Curió.

Defensoria e as famílias do Curió

A presença da Defensoria Pública no caso da Chacina do Curió vai além da atuação nos processos judiciais. A partir do acolhimento das mães e familiares das vítimas, a instituição estruturou uma atuação específica para acompanhar essas famílias em uma trajetória marcada pela busca por justiça, memória e reparação.

A Rede Acolhe nasceu dessa experiência e se consolidou como uma frente de atendimento jurídico e psicossocial às vítimas de violência e seus familiares. Nos julgamentos da Chacina do Curió, a Defensoria acompanha as famílias, oferece suporte por meio de sua equipe multidisciplinar e permanece ao lado das mães durante as diferentes etapas dos processos.

Chacina do Curió

A Chacina do Curió aconteceu na madrugada de 12 de novembro de 2015, na periferia de Fortaleza, e deixou 11 pessoas mortas. A maioria das vítimas tinha entre 16 e 18 anos e não possuía antecedentes criminais. Segundo a acusação apresentada pelo Ministério Público, os crimes teriam sido praticados por policiais militares como forma de vingança pela morte de um policial militar ocorrida horas antes.

O caso é um dos episódios de maior repercussão envolvendo violência policial no Ceará e vem sendo analisado em diferentes sessões do Tribunal do Júri. O novo julgamento de José Wagner Silva de Souza e José Oliveira do Nascimento ocorrerá quase 11 anos após a Chacina do Curió, em um processo no qual a Defensoria Pública permanece presente tanto na defesa técnica dos acusados quanto no acompanhamento das famílias das vítimas.