Em Nome Delas: sobreviventes da violência de gênero assistem à documentário sobre santificadas pela fé popular que sofreram feminicídio
Nesta sexta-feira, 11, o Núcleo de Enfrentamento à Violência contra a Mulher (Nudem) da Defensoria Pública do Estado do Ceará concluiu mais um curso do projeto Daqui pra Frente. A iniciativa busca promover formações profissionalizantes para gerar autonomia financeira em sobreviventes da violência doméstica e de gênero. Durante o encerramento, foi apresentado o documentário Em Nome Delas, produção da Secretaria de Comunicação da Defensoria que conta casos de vítimas de feminicídio que foram santificadas pela fé popular no Ceará.
O documentário Em Nome Delas da Defensoria faz parte do especial de mesmo nome que marca os 20 anos da criação da Lei Maria da Penha (Nº 11.340 de 2006). A série de reportagens e documentário fala sobre mulheres santificadas no Ceará que foram vítimas de diferentes formas de violência de gênero e que culminaram em feminicídio.
O especial fala de santificadas pela fé popular em diferentes épocas e em dez cidades cearenses: Romana, na Meruoca (Século XIX), Maria Alice, em São Gonçalo do Amarante (1924), Maria de Bil, em Várzea Alegre (1926), Isabel Maria, em Guaraciaba do Norte (1929), Mártir Francisca, em Aurora (1958), Maria Marina, de Lavras da Mangabeira (1958), Maria Augusta, em Iguatu (1965), Maria Filomena de Lacerda, em Mauriti (1975) e Regina de Fátima, em Fortaleza (1982).
Confira o especial completo aqui: https://campanha.defensoria.ce.def.br/em-nome-delas/
O documentário foi exibido para a turma de 22 mulheres concludentes da capacitação em Confecção de Bijuterias. Durante o curso de duas semanas, realizado na Casa da Mulher Brasileira, além de criar os materiais, elas também tiveram aulas sobre empreendedorismo, marketing, uso de redes sociais e gestão de pequenos negócios.
Após a exibição do documentário, Eduarda (nome fictício), de 44 anos, destacou a importância da união entre mulheres e instituições para superar o ciclo de violência. “A gente não tem a dimensão de quanto as mulheres sofrem, né? A gente tem sofrido, tem enfrentado bastante, mas o mais importante é a gente se unir. É essa corrente mesmo de informação, de ajuda, e de dar a mão e dizer, ó, você não tá sozinha”.
A Caetana (nome fictício), de 35 anos, lembrou da própria história e de como a existência dos mecanismos criados pela Lei Maria da Penha contribuíram para que ela pudesse construir uma nova história. “[Ele, ex-marido] dizia que ia matar de noite, quando eu tivesse dormido”, remonta sobre a história que a levou a buscar a ajuda da Defensoria pelo Nudem. “Então, graças a Maria da Penha, a gente vive de outra forma, de uma maneira mais justa. E infelizmente teve que morrer várias pessoas, aconteceu várias coisas. Foram pessoas que realmente foram salvadoras porque através delas começamos a ter voz e deixar fazer com que tenha justiça”, afirma.
Ao apresentar o material para as concludentes, a defensora pública estadual Jeritza Braga, supervisora do Nudem, falou sobre as personagens do documentário terem vivido em épocas em que não se falava sobre as violências de gênero. Assim, também não havia nenhum mecanismo de proteção a favor delas. “Com essas oportunidades, com essa legislação que não tinha antes, de proteção, de prevenção a essas mulheres, a gente quer realmente que elas tenham novas oportunidades. E que elas percebam que, na verdade, a realidade de hoje é só uma continuação da que a gente viveu no passado, que esse patriarcado sempre existiu, mas a gente tá aqui para tentar fazer a diferença na vida delas”, destaca Jeritza Braga.
Daqui pra Frente – Muito além de criar possibilidades profissionais, o encontro entre mulheres com histórias distintas, mas vítimas de violências vindas da mesma origem, se torna um lugar de trocas e de formação de uma nova rede de apoio. A instrutora do curso, Cristina Araújo destaca os diversos ganhos na formação. Elas fazem amizades, ganham autoestima e exercitam a própria criatividade.
“Elas conversam, trocam experiências, contam a história de vida delas, tudo nesse período que elas estão aprendendo a fazer bijuteria. Mas o mais legal de tudo mesmo é o sentimento que elas saem daqui de que conseguiram aprender uma habilidade. Elas vão aprendendo, vendo as bijuterias ficando prontas e vão criando uma força dentro delas… É incrível!”, conta a instrutora.
Mariana, de 51 anos, já saiu das aulas usando as bijuterias que conseguiu elaborar. “Eu nunca pensei em fazer bijuteria. Tô me sentindo orgulhosa. E feliz com as minhas biju. Tô me sentindo uma diva!”.
Neide, de 30 anos, quer utilizar os materiais feitos por ela para mimar as clientes dela num futuro negócio. “Está sendo muito bom, muito proveitoso o curso. Conheci muitas pessoas. E a intenção é que, mais na frente eu quero trabalhar para mim, o mais rápido possível. E aí eu vou dar bijus de brinde para as minhas clientes e também botar minhas filhas para começar a fazer as bijus”, planeja o concludente.
A turma de mulheres já saiu da última aula com o próximo encontro delas marcado. Elas vão se reunir para continuar pensando e construindo bijuterias juntas, além de compartilhar as trajetórias de vida em boas conversas.
