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Maria Augusta está coberta de brinquedos e presentes 

Maria Augusta está coberta de brinquedos e presentes 

Publicado em
TEXTO: rose serafim
ARTE: DIOGO BRAGA

Na década de 1970, um piloto de avião argentino chega à cidade de Iguatu, no Centro-Sul do Ceará, afirmando ter sido salvo pela alma de Maria Augusta da Silva, uma adolescente vítima de morte violenta na cidade.  A história popular conta que esse homem disse ter orado por ajuda em um vôo turbulento e conseguiu pousar a máquina com o auxílio dessa menina, que apareceu sob a asa da aeronave. Ela então teria dito nome completo e que morreu aos 14 anos. Ela viveu na cidade cearense onde ele foi agradecer pela graça alcançada.

O escritor e pesquisador Cícero Cruz narra a história repetida pelo povo no livreto “A História de Maria Augusta: a virgem iguatuense que imitou a Santa Italiana Maria Goretti”, publicado em 2009. 

A obra conta o crime contra a vida de Maria Augusta da Silva, assassinada pelo próprio pai. Data 1965, quando tinha 14 anos e deixou a casa dos pais para morar com um dos irmãos mais velhos. O motivo: a mãe da menina havia notado que o crescimento da adolescente tinha despertado interesses lascivos do pai, José Augusto da Silva, que passou a assediar Maria.

O afastamento não adiantou. No dia 23 de junho de 1965, José Augusto aproveitou um momento em que Maria estava sozinha com uma sobrinha pequena e foi em busca dela. Após ser rejeitado, matou a própria filha a golpes de roçadeira.

Maria Augusta foi tomada como uma santa popular aos moldes da santa italiana Maria Goretti, morta aos 12 anos por 14 facadas ao resistir a um estupro e canonizada pela Igreja Católica em 1947. Maria Goretti é uma das protetoras da castidade, da juventude e das vítimas de estupro. 

A grande comoção na cidade, seguida do testemunho do piloto estrangeiro foram os elementos fundamentais para a elevação de Maria Augusta à qualidade de milagreira. Como não tem capela, o local de oração vem sendo o túmulo que, ao longo dos anos, se tornou o mais procurado do Cemitério Nossa Senhora de Sant’Ana, em Iguatu. 

“Antes o pessoal fazia promessas, mas não tinha coragem de dizer”, diz o pesquisador Cícero Cruz. Ele conta que conhece a história desde criança e que a publicação em 2009  ajudou a falar mais abertamente sobre o assunto, inclusive com os mais jovens. 

Em novembro de 2017, o jornal Diário do Nordeste publicou uma notícia de que a Diocese de Iguatu investiga as graças atribuídas à menina Maria Augusta. Na época, o bispo da Diocese, dom Édson de Castro Homem, havia determinado a coleta de depoimentos de parentes e amigos de Maria Augusta, além de outras fontes históricas, para analisar a possibilidade de abertura do processo de beatificação, a ser autorizado pela Santa Sé.

O coveiro João Alves do Carmo, de 65 anos, que observa há décadas a movimentação no túmulo de Maria Augusta, explica que as pessoas pagam promessas por graças alcançadas com brinquedos, balas e presentes dedicados a crianças. “O povo se apega com ela. O povo disse que ela se santificou”, conta.