Mutirão Meu Pai Tem Nome garante reconhecimento de paternidade e fortalece vínculos familiares no interior do Ceará
Texto: Amanda Sobreira
Fotos: Sérgio Santiago/Priscilla Raquel
Moradora da Serra da Meruoca, a cerca de 20 quilômetros de Sobral, a doméstica Cleidiane Ferreira teve a vida transformada por uma ligação inesperada no ano passado. Aos 40 anos, ela descobriu que o homem que acreditava ser seu pai biológico não tinha qualquer vínculo de sangue com ela. A revelação de um antigo segredo de família a levou ao verdadeiro pai e, neste sábado (1º), os dois oficializaram o reconhecimento da paternidade durante o mutirão Meu Pai Tem Nome, realizado pela Defensoria Pública.
Orfã de mãe aos 4 anos, Cleidiane cresceu acreditando que o homem que tinha sido casado com sua mãe era seu pai, mas sem uma relação de amor, viveu acompanhada por uma sensação de abandono e rejeição. Na ligação, o tio contou que estava ao lado de seu pai biológico e que ele desejava conhecê-la. Mesmo surpresa com a revelação, os dois fizeram uma chamada de vídeo e, segundo Cleidiane, foi como se um laço entre pai e filha surgisse imediatamente. Desde então, eles passaram a conviver, construíram uma relação de afeto e, além do pai, Cleidiane ganhou uma família completa com 4 irmãos.

“Eu sou muito grata ao meu tio por ter se comovido, em meio à dor e ao sofrimento, e contado a verdade, e à minha irmã, que encontrou uma solução por meio da Defensoria. Costumo dizer ao meu pai que hoje me sinto realizada, porque tive uma infância de muita frustração. Estou muito feliz e emocionada com essa ação, porque ela já mudou tudo na minha vida”, disse Cleidiane, ansiosa pela retificação da certidão de nascimento, prevista para a próxima semana.
Em Sobral, 31 pessoas se inscreveram no mutirão, um aumento de quase 48% em relação à edição anterior, quando 21 atendimentos foram registrados. Ao longo da ação, a Defensoria Pública realizou oito coletas de material genético para exames de DNA, homologou quatro reconhecimentos voluntários de paternidade por meio de mediação e ajuizou oito ações de investigação de paternidade.
“Foi uma grande satisfação coordenar o mutirão este ano. A cada edição percebemos mais pessoas buscando esse direito, e poder contribuir para aproximar famílias e garantir o reconhecimento desses vínculos é algo muito positivo”, afirmou o defensor público Pedro Aurélio, supervisor da Defensoria em Sobral.
Atendimentos no Cariri
No Cariri, o mutirão foi realizado na sede da Defensoria Pública, no Crato, atendendo também moradores de Juazeiro do Norte e Barbalha. Entre as histórias que marcaram a ação está a de Euzélio Rodrigues, que descobriu que também poderia ser beneficiado pelo mutirão enquanto ajudava a divulgá-lo.
Ex-DJ e atualmente divulgador, Euzélio foi contratado para anunciar o mutirão em um carro de som. Ao ouvir quais serviços seriam oferecidos pela Defensoria Pública, percebeu que também poderia ser atendido.

As duas filhas já conviviam com ele, com a esposa, os irmãos e toda a família. Faltava apenas o reconhecimento formal da paternidade. Neste sábado, os três estiveram na Defensoria para transformar em direito um vínculo que já existia no dia a dia.
“As meninas já convivem com toda a minha família. Minha esposa as considera como filhas e meus filhos também têm uma relação muito boa com elas. Faltava apenas resolver essa parte perante a lei. Quando comecei a divulgar o mutirão, percebi que era a oportunidade que a gente esperava. Liguei para uma delas e disse que tinha chegado a nossa vez. Agora é só aguardar as certidões”, afirmou.
Ao todo, 34 famílias participaram do mutirão no Cariri. 14 passaram pela etapa de coleta de material genético para exames de DNA, totalizando 42 coletas, sendo 41 para investigação de paternidade e uma de maternidade. Também foram realizadas cinco mediações para reconhecimento consensual de paternidade. Além disso, os defensores públicos prestaram 15 atendimentos jurídicos, que resultaram no ajuizamento de oito ações de investigação de paternidade, cinco reconhecimentos de paternidade socioafetiva e uma adoção e um reconhecimento voluntário.
“Cada atendimento representa uma história transformada e um vínculo familiar fortalecido. O mutirão reafirma o compromisso da Defensoria Pública com a garantia do direito à identidade, ao acesso à Justiça e à promoção da cidadania”, destacou a defensora pública Luciane de Sousa Silva Lima, supervisora da Defensoria Pública no Crato e coordenadora da ação no Cariri.

