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Romana: ‘a santa da minha casa faz milagre’

Romana: ‘a santa da minha casa faz milagre’

Publicado em
Texto: Bianca Felippsen
ARTE: DIOGO BRAGA

A história é tão bem contada que quase apaga a distância de mais de um século. A riqueza de detalhes, os caminhos e até o cheiro do lugar, transmitidos de boca em boca e repetidos por gerações, ajudam a explicar a devoção a uma das santas deste especial: Romana.

A caseira do lugar, Maria Lucilene Dias, a Leninha, cresceu ouvindo essa história. Segundo a narrativa transmitida pela comunidade, Romana seria filha de um português com uma mulher escravizada. Teria trabalhado como ama na casa da fazenda. Muito bonita, não teria cedido às investidas do capataz, conhecido como Nêgo João, nem às do filho do proprietário das terras. Os dois teriam preparado uma emboscada.

A história que Leninha aprendeu ainda criança fala sobre a recusa de Romana, e ocupa um lugar central nessa memória: mesmo submetida à escravidão, ela tentava preservar a decisão sobre o próprio corpo. Durante a violência, Romana teria reagido. O filho do proprietário caiu em um barranco e morreu. Nêgo João, então, atribuiu a ela a responsabilidade pela morte.

A palavra dele prevaleceu. “Romana foi castigada e permaneceu em silêncio. Depois, ainda muito debilitada, teria sido obrigada a seguir viagem carregando alimentos na cabeça em direção a Sobral, onde seria presa. Mas, no caminho, ela caiu.”

É nesse ponto que a história atravessa o campo do extraordinário, elemento essencial da devoção popular. “O cesto de cajus que Romana carregava caiu no chão. Os frutos teriam se transformado em um rosário em volta da cabeça dela”, relembra Leninha.

Nêgo João, arrependido, teria se aproximado. Segundo a narrativa, em suas últimas palavras, Romana lhe concedeu perdão. Seu corpo teria sido enterrado ali mesmo. No lugar, permaneceu uma grande cruz de madeira, ainda hoje preservada.

Anos mais tarde, pessoas que passavam pelo caminho, a pé ou montadas em animais, diziam sentir um forte cheiro de rosas naquele ponto. Fragmentos da história de Romana continuaram circulando.

Leninha também guarda a história de um milagre. Uma família da região tinha um menino acometido por uma doença considerada incurável. “Os pais teriam pedido a intercessão da alma de Romana e feito uma promessa: caso o menino se recuperasse, construiriam uma capela. O menino sobreviveu”.

Já adulto, ele retornou ao Ceará para cumprir a promessa feita pelos pais e mandou construir, por volta de 1912, uma pequena capela de três metros por três metros, coberta de palha. A antiga cruz de madeira atribuída a Romana permaneceu preservada dentro da capelinha.

O lugar dedicado a ela era muito diferente do santuário que existe hoje, construído pela família Machado e aberto ao público aos domingos. O acesso era difícil e a chave ficava sob os cuidados de dona Efigênia Almeida, hoje com 93 anos, que ainda mora nas redondezas. Ela relembra os milagres e os devotos que ali acolheu.

A partir da mobilização comunitária daquela memória, os proprietários do sítio começaram a pesquisar a história de Romana. Em 2002, foi erguido o Santuário da Cruz de Romana.

A pesquisa do casal chegou a um antigo livro de Gurgel do Amaral, autor de Sobral. Nesse processo, outras informações transmitidas sobre o lugar ganharam força, entre elas a existência de um antigo caminho utilizado durante o período escravista. “Era um caminho tão antigo que o mato cobriu, mas ele permanecia vivo”, relembra dona Efigênia.

Em 2004, foram construídas as escadarias que hoje integram o santuário. São 365 degraus e, ao longo do percurso, estão representadas as estações da Via-Sacra. Em setembro, o lugar recebe a festa da Exaltação da Santa Cruz, com direito a missa e quermesse.

Quando a história de Romana é retirada, por alguns instantes, do território do milagre, da cruz e das rosas, surge outra narrativa. A de uma mulher submetida a uma sociedade na qual sequer era reconhecida como pessoa e livre.

Romana não pôde decidir sobre o próprio corpo nem sobre o próprio destino. Sua vontade não foi suficiente para protegê-la. Quando foi acusada, sua palavra não prevaleceu.

Séculos depois, Leninha trabalha justamente com direitos. É conselheira tutelar e atua na proteção de crianças e adolescentes no município de Meruoca. É nesse cotidiano que percebe como aquela história antiga encontra ecos desconfortáveis atuais. Meninas e adolescentes seguem sendo respeitadas e violadas.

Foi por esse mesmo caminho que encontramos a devota Dayane Liberato no Santuário de  Romana. Aos 21 anos, ela procurou a santa após ter alcançado uma graça. Hoje, com mais de 40, retorna ao lugar por outra razão: aquietar o coração. “É neste lugar que encontro paz e estou em contato com a natureza”, explica.

Para Dayane, Romana também personifica uma luta que continua atravessada na vida das mulheres: a busca por espaço, autonomia e liberdade, seja no mercado de trabalho, seja nas relações amorosas.

Apesar da distância de séculos entre essas mulheres, uma pergunta perdura: quem acredita na palavra de uma mulher?

Romana não teve leis que a protegessem. Não teve uma rede a quem recorrer. Segundo a memória popular, restou-lhe uma cruz no caminho.

Depois vieram outras mulheres. Luiza de Marilac, proprietária do sítio. Dona Efigênia, guardiã da chave. Leninha, que cresce divulgando essa história. Dayane, que continua voltando e acreditando.

De modos diferentes, elas ajudam a manter aberta a porta para que aquela mulher não desapareça outra vez.

Leninha sabe que Romana não é reconhecida como santa pela Igreja Católica, mas isso não desfaz aquilo que acredita. “O santo de casa faz milagre. O santo da minha casa faz”, resume.