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Um clique, uma ligação, um golpe: as armadilhas das fraudes contra pessoas idosas

Um clique, uma ligação, um golpe: as armadilhas das fraudes contra pessoas idosas

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TEXTO: LEONARDO OLIVEIRA – ESTAGIÁRIO SOB SUPERVISÃO  
ARTE: DIOGO BRAGA 

Em um país onde quatro em cada dez pessoas com mais de 60 anos afirmam já ter sido vítimas de golpes financeiros, as fraudes contra a população idosa se tornaram um desafio cada vez mais presente no ambiente digital. É o que aponta pesquisa da Silverguard e do Instituto Opinion Box realizada em 2025 com mais de mil pessoas de todas as regiões do Brasil.

Passar por um golpe ou tentativa de fraude, se sentir enganado e perceber que alguém se apropriou de seu dinheiro é uma experiência capaz de gerar consequências que vão além do prejuízo financeiro. 

Com as pessoas idosas, as fraudes afetam a autonomia, a confiança e a própria relação com os meios eletrônicos que fazem parte da rotina, como aplicativos bancários, redes sociais e serviços digitais.  

Uma mensagem enviada pelo banco, um link que leva para uma página, uma ligação, uma oferta de empréstimo ou serviços e até mesmo uma mensagem de ajuda que aparentemente vem de um familiar. Cair nessa realidade não é uma fraqueza da pessoa, mas sim da sociedade em que vivemos. 

As estratégias utilizadas pelos criminosos são variadas e, muitas vezes, reproduzem a linguagem, a identidade visual e os procedimentos de empresas e instituições conhecidas para convencer a vítima de que aquele contato é verdadeiro. 

Para a defensora pública Michele Camelo, titular do Núcleo de Atendimento Especializado à Pessoa Idosa da Defensoria do Ceará, essa realidade já representa uma demanda importante para esse público.

“Nós visualizamos que existem duas demandas muito fortes envolvendo pessoas idosas no sistema de justiça: as relacionadas à saúde e as que dizem respeito ao direito do consumidor, especialmente às fraudes. Hoje, o Núcleo do Consumidor recebe muitas demandas de pessoas idosas, seja por terem sido vítimas de fraudes ou por terem assinado algo sem compreender plenamente”, destaca.

De fato, o crime de estelionato eletrônico no país vem ganhando dimensão ano após ano. De 2024 a 2025, houve um crescimento de 20,6%. Em 2025, foram cerca de 950 registros de estelionato eletrônico por dia, ou quase 40 por hora, segundo dados do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. 

As ações criminosas se transformam com o tempo e envolvem diferentes tipos de estratégias, como encenações, cenários falsos, fraudes por meio de links, aplicativos, redes sociais e inteligência artificial. 

“Estamos tratando de uma desigualdade muito grande, porque os golpistas têm toda uma tecnologia à disposição. Muitas vezes, eles já possuem dados pessoais da vítima, como CPF e data de nascimento, e utilizam essas informações para gerar confiança”, ressalta a defensora Michele Camelo.

Confiança construída em nove meses 

Nos corredores da Defensoria Pública, mais especificamente no Núcleo de Atendimento Especializado à Pessoa Idosa, não é difícil encontrar histórias de pessoas que já enfrentaram golpes ou tentativas de fraudes. Uma delas é a Maria da Conceição, de 61 anos. Sua história chama atenção. Durante meses, ela manteve contato direto com um homem que tentava obter seus dados pessoais. 

“Ele entrou em contato comigo pelo instagram se passando por um artista chinês, e depois me passou seu número de celular. Dizia que queria me mandar 25 mil dólares, uma joia de ouro e um retrato autografado, mas que, para isso, eu precisava fornecer alguns dados pessoais”, conta.

Maria ressalta que nunca forneceu os dados pedidos e que esse período de contato frequente com o golpista se estendeu por nove meses, ao longo de 2022.

“Eu sempre dizia que não precisava e que não passaria meus dados, porque sabia que existiam muitos golpistas. Mesmo assim, ele insistiu durante nove meses. Mandava ‘bom dia’, perguntava como tinha sido meu trabalho, parecia uma pessoa normal, como se a gente se conhecesse. Até que um dia eu disse que ele era um golpista. Ele respondeu: ‘Pois tá bom, tchau. Vejo que você não confia em mim’. Depois disso, nunca mais falou comigo”, relembra.

A experiência de Maria mostra como uma tentativa de fraude pode se prolongar e assumir características de uma relação de confiança, nem sempre será um contato isolado ou uma única mensagem. 

Para a supervisora do Núcleo de Defesa do Consumidor (Nudecon) Rebecca Machado, a sofisticação dessas abordagens exige atenção constante no ambiente virtual. 

“De fato, é necessário ter alguma destreza, alguma experiência e sempre desconfiar. Infelizmente, não temos como entrar no ambiente virtual e confiar 100%. Precisamos estar atentos, entendendo que é necessário desconfiar de cada passo que damos dentro desse ambiente”, destaca.

Durante todo esse período, Maria chegou a confidenciar a situação para amigas e seu filho, porém nunca procurou autoridades nem registrou boletim de ocorrência.

“Ele só mandava mensagens em inglês, e eu traduzia. Minhas amigas do trabalho viam e perguntavam porque eu estava recebendo aquelas mensagens. Eu também mostrava para o meu filho mais novo, mas nunca contei para o mais velho, porque ele é policial. Até hoje ele não sabe. Eu nunca cheguei a procurar a polícia ou registrar um boletim de ocorrência porque, naquele momento, achei que não precisava”.

A decisão de Maria de não procurar ajuda chama atenção para outro aspecto das fraudes: os impactos emocionais e a dificuldade que algumas vítimas encontram para compartilhar o que aconteceu. 

Os impactos das fraudes também aparecem na pesquisa da Silverguard e do Instituto Opinion Box. Entre os entrevistados que foram vítimas, 29% relataram frustração; 25%, raiva; 19%, medo; e 11%, vergonha. Outros 16% mencionaram impactos na saúde, como ansiedade e insônia. 

“Muitas vezes, a pessoa se sente culpada, envergonhada e acaba não procurando ajuda. Mas é preciso agir rapidamente. Se o banco não resolver, procure a Defensoria o mais rápido possível. E é importante ficar atento: se alguém está pressionando você para fazer um pix, clicar em um link ou tomar alguma decisão rapidamente, isso deve servir como um sinal de alerta”, afirma a defensora Michele Camelo.

A hipervulnerabilidade digital 

A relação da população idosa com as tecnologias digitais também ajuda a compreender os desafios enfrentados por esse público diante das fraudes nesse meio. Apesar do avanço do acesso à internet entre a população idosa nos últimos anos, as pessoas com 60 anos ou mais ainda são a faixa etária com menor a quantidade de usuários no país. 

Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do IBGE, 74,5% das pessoas dessa faixa etária utilizaram a internet em 2025. Entre os idosos que não acessaram a rede, 66,5% apontaram não saber utilizá-la como principal motivo. 

Para a defensora Rebecca Machado, esse cenário ajuda a compreender o que ela classifica como “hipervulnerabilidade” de parte da população idosa no ambiente digital.

“Muitas pessoas idosas são hipervulneráveis no ambiente digital. É uma geração que ainda não tem tanta intimidade com a tecnologia e pode encontrar dificuldades para navegar com segurança na internet, identificar se um site é confiável ou se um canal de WhatsApp é realmente oficial de uma empresa. Por isso, muitos golpes e fraudes, especialmente os de caráter patrimonial, acabam sendo direcionados à população idosa”.

A Defensoria Pública atua em casos nos quais consumidores buscam contestar contratos, empréstimos ou movimentações que afirmam não reconhecer. Cada situação é analisada individualmente, considerando as circunstâncias em que a possível fraude ocorreu e os elementos apresentados pelo consumidor.

“A depender do caso concreto e do tipo de golpe, vamos avaliar como aquela situação aconteceu, se houve assinatura, se não houve, se foi por telefone, de forma presencial e quais foram as circunstâncias. A partir dessa análise, verificamos quais são as melhores estratégias para minimizar ou, quando possível, solucionar os problemas decorrentes daquela fraude”, explica Rebecca Machado.

O aprendizado permanece até hoje na vida de Maria da Conceição, que como muitos brasileiros, recebe inúmeras ligações.

“Desde então eu recebo muita ligação, mas eu não atendo mais nenhuma, aparece ligações de vários estados e nem atendo, recebo várias em um dia só. Conheço muita gente que sofreu com as fraudes e chegaram a perder dinheiro com isso”, afirma Maria.

Para ela, ter acesso à informação e saber onde buscar orientação são medidas importantes para evitar novas tentativas. Recentemente, ela contou ter recebido outro contato suspeito, dessa vez utilizando o nome de uma empresa de energia.

“Acho o atendimento da Defensoria para esses casos muito importante, porque é muito comum as pessoas atenderem ligações e clicarem em links. Recentemente, recebi um e-mail dizendo que meu nome estava no Serasa porque eu estava devendo a conta de energia e que deveria clicar em um link para resolver. Liguei para a empresa e me explicaram que se tratava de um golpe. Então, ser orientado e buscar ajuda é importante”, conta Maria da Conceição.

Neste mês de outubro, marcado pelo Outubro Prateado, campanha dedicada à valorização da pessoa idosa e à conscientização sobre um envelhecimento saudável, ativo e digno, reforçar o conhecimento sobre direitos e formas de proteção se torna ainda mais necessário. Informação é uma ferramenta importante para garantir segurança, autonomia e dignidade à população idosa.

Dicas de como agir em casos de fraudes 

Parceria do Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE) com a Defensoria Pública do Estado do Ceará (DPCE) na campanha “Fraude contra a Pessoa Idosa é Violência”.

SERVIÇO

NÚCLEO DE DEFESA DO CONSUMIDOR
Endereço: Rua Júlio Lima, 770 – Bairro Cidade dos Funcionários
Telefone: (85) 3194-5049

JUIZADOS ESPECIAIS
WhatsApp: (85) 98982-9230 – (85) 9 8975-4449 (somente mensagens)
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E-mail: juizados.especiais@defensoria.ce.def.br