Voz de Jovita Belfort: desaparecimento da filha ecoa em evento na Defensoria
Texto: Clara de Assis, ESTAGIÁRIA SOB SUPERVISÃO
Imagem: Millin Albuquerque
“À noite eu me despeço dela, e de manhã a procuro de volta.” Há 22 anos, essa é a rotina de Jovita Belfort, mãe de Priscila Belfort, desaparecida em janeiro de 2004, no Rio de Janeiro. Sem respostas sobre o paradeiro da filha, ela transformou a própria dor em mobilização e passou a atuar na construção de políticas públicas voltadas às pessoas desaparecidas.
A trajetória de Jovita Belfort foi compartilhada durante o IV Encontro sobre os Aspectos Jurídicos do Desaparecimento de Pessoas, realizado em Fortaleza, em um painel dedicado ao papel da Defensoria Pública no acolhimento e na garantia de direitos às famílias.

O desaparecimento de Priscila Vieira Belfort, caso que ganhou repercussão nacional, mudou os rumos da vida de Jovita. Priscila desapareceu em 9 de janeiro de 2004 em plena luz do dia em uma das avenidas mais movimentadas do Rio de Janeiro. O caso ganhou grande notoriedade porque ela é irmã do lutador Vitor Belfort e recentemente foi lançado ‘Volta Priscila’, série documental de quatro episódios que fala sobre os detalhes a investigação e as reviravoltas que envolveram o desaparecimento da jovem.
Jovita Belfort contou que quando iniciou a busca pela filha, o Rio de Janeiro ainda não contava com políticas públicas específicas para atender famílias de pessoas desaparecidas. A partir dessa realidade, participou da mobilização pela criação da Delegacia de Descoberta de Paradeiros, integrou grupos de trabalho sobre o tema e, atualmente, atua como superintendente de Pessoas Desaparecidas e Documentação Básica da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos do Rio de Janeiro.
Ao relatar a experiência de mais de duas décadas de busca, Jovita destacou que o desaparecimento produz um sofrimento permanente, marcado pela ausência de respostas. “O desaparecimento não é normal. […] A pior coisa foi ter que viver normal: tomar banho, escovar os dentes, sentir fome, passar perfume”, afirmou.
Durante o painel, a assistente social do Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos da Defensoria Pública do Rio de Janeiro, Thalita Thomé dos Santos, apresentou a experiência da instituição no atendimento às famílias de pessoas desaparecidas. Ela explicou que o trabalho é desenvolvido de forma interdisciplinar e envolve o acompanhamento de demandas relacionadas à saúde, assistência social, educação e acesso a benefícios, além da orientação jurídica. A profissional também destacou a criação do Observatório de Ações Institucionais e Políticas Públicas Relacionadas ao Desaparecimento de Pessoas e Óbito, iniciativa voltada ao fortalecimento da produção de dados e ao desenvolvimento de políticas públicas para o tema.
Segundo Thalita, a equipe identifica que muitas famílias chegam à Defensoria em situação de grande vulnerabilidade econômica e emocional, o que exige um acompanhamento contínuo e individualizado. Ela ressaltou ainda que ferramentas como o atendimento remoto e a articulação com a rede de saúde e assistência social têm contribuído para ampliar o acesso aos serviços e reduzir os obstáculos enfrentados pelos familiares durante a busca.
A psicóloga do Núcleo de Direitos Humanos e Ações Coletivas da Defensoria Pública do Ceará, Kelma Perez, abordou os impactos psicológicos provocados pelo desaparecimento de pessoas e explicou que os familiares vivenciam uma condição conhecida como perda ambígua, caracterizada pela ausência de respostas e pela dificuldade de elaborar o luto. Segundo ela, cada família experimenta esse processo de maneira singular, o que exige uma atuação sensível e integrada dos profissionais envolvidos.
“Antes de tudo ele é uma pessoa com demandas jurídicas. Antes de tudo ele é uma pessoa. […] A gente tem um cuidado muito grande de fazer esse acolhimento de uma maneira mais humanizada possível, mais singular possível, mais próxima possível, olhando no olho, escutando”, afirmou. A psicóloga também destacou a importância do trabalho em rede para evitar a revitimização das famílias, articulando o atendimento entre diferentes instituições para que os familiares não precisem reviver repetidamente sua história.
Ao encerrar a participação, Jovita reforçou a importância de fortalecer as políticas públicas voltadas ao desaparecimento de pessoas e do trabalho desenvolvido pelas Defensorias Públicas. Para ela, o acolhimento oferecido às famílias representa um passo fundamental para que a busca por respostas seja acompanhada da garantia de direitos e de uma rede de apoio preparada para enfrentar um dos sofrimentos mais difíceis vividos por uma família.

