A infância precisa de conexão e nem toda conexão depende da internet
Nova campanha da Defensoria do Ceará discute o uso de telas por crianças e adolescentes a partir do direito à convivência, à proteção e a uma experiência digital mais segura. Em – Tela, + Conexão, HQs ilustram a necessidade de falar com criança do jeito que criança gosta: ao vivo e com atenção
Em 2025, 92% dos brasileiros entre 9 e 17 anos eram usuários de internet, o equivalente a cerca de 24 milhões de crianças e adolescentes. A tecnologia já atravessa a forma como essa geração estuda, conversa, se diverte, cria vínculos e entende o mundo.
Por isso, a discussão não é simplesmente sobre tirar o celular da mão de crianças e adolescentes. A pergunta é outra: quanto espaço a tela passou a ocupar na vida e o que, aos poucos, foi ficando do lado de fora?
É dessa provocação que nasce a campanha – Tela, + Conexão, da Defensoria Pública do Estado do Ceará. A proposta trata do uso excessivo de celulares e outros dispositivos na infância sem demonizar a tecnologia, mas também sem naturalizar uma rotina em que quase tudo passa por uma tela, até porque presença, conversa, brincadeira, descanso, escola, convivência, movimento e proteção continuam sendo parte do desenvolvimento. E não há aplicativo que substitua isso.
O debate também não pode ignorar a vida real. Para muitas famílias, o celular ocupa lacunas que não foram criadas por escolha. Jornada de trabalho extensa, falta de rede de apoio, insegurança nos territórios, ausência de espaços para brincar, cansaço. Em muitos momentos, a tela vira recurso possível.
É justamente por isso que a discussão não pode começar pela culpa. “Como mãe, penso muito nisso. Não se trata de colocar mais uma cobrança sobre as famílias, mas de perceber onde é possível fazer diferente. A criança precisa ser convidada a viver também esse mundo que está a um palmo da mão, fora do celular, sem que isso signifique negar a tecnologia. O problema não é a existência da tela. O alerta aparece quando ela vira companhia, ruído permanente, refúgio, isolamento ou praticamente a única possibilidade de diversão”, pondera a jornalista e secretária de Comunicação da Defensoria, Bianca Felippsen, mãe de três filhos.
Na campanha, o traço da designer Valdir Marte leva essas questões para situações muito reconhecíveis do cotidiano. As HQs passam pelas férias escolares, pelas brincadeiras, pelas conversas e, principalmente, por aquilo que a campanha quer recuperar: conexões que não dependem de wi-f ou bateria. A campanha está no ar nas redes da Defensoria.
Siga o perfil @defensoriaceara no Instagram, curte e compartilha, as primeiras peças:
Quando as férias começam (14/07)
https://www.instagram.com/p/DaxYplfEfKA/?img_index=1
Tédio (23/07)
https://www.instagram.com/p/DbImq93GsIs/?img_index=1
Fim das férias (30/07)
https://www.instagram.com/p/DbaktJoGsgF/?img_index=1
Dia da Infância (25/08)
https://www.instagram.com/defensoriaceara/p/Dca_ZaEm-0s/
A internet também é território de direitos
Quando uma criança entra na internet, ela não deixa seus direitos do lado de fora. Privacidade, proteção da imagem e dos dados pessoais, prevenção de violência, exploração, discriminação, assédio e exposição indevida também fazem parte dessa conversa.
Essa proteção ganhou um novo marco no país com o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, o chamado ECA Digital, Lei nº 15.211/2025, em vigor desde março de 2026. A legislação estabelece obrigações para produtos e serviços digitais acessados por crianças e adolescentes e prevê medidas relacionadas à proteção de dados, aferição de idade, supervisão parental, publicidade e jogos eletrônicos.
“Um dos princípios importantes da nova legislação é justamente retirar das famílias a responsabilidade exclusiva pela proteção. O cuidado no ambiente digital deve ser compartilhado por famílias, sociedade, Estado e plataformas”, lembra a defensora Noemia Landim, supervisora do Núcleo de Atendimento da Defensoria Pública à Infância e Juventude (Nadij) da Defensoria.
Esse é um ponto que muda o centro da conversa. Não basta orientar mães, pais e responsáveis a controlar o celular. Plataformas também precisam responder pelo ambiente que oferecem, pelos riscos a que expõem crianças e adolescentes e pelas estratégias criadas para manter usuários conectados.
Outro eixo da campanha é a mediação adulta. Não apenas saber quanto tempo a criança ficou online, mas saber o que aconteceu ali. “Mais do que fiscalizar o que uma criança faz no celular, cuidar também significa conversar sobre aquilo que ela encontra ali: o vídeo que assustou, a mensagem recebida de alguém desconhecido, a pressão para publicar determinada imagem, a publicidade que parece conteúdo, uma abordagem estranha em um jogo ou aquilo que acontece em um grupo de mensagens”, pondera Noemia.
A conversa, nesse caso, precisa vir antes da vigilância. A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda que pais e responsáveis acompanhem conteúdos e estabeleçam limites adequados às diferentes idades, mas também chama atenção para a importância do diálogo, da convivência fora das telas e da alfabetização digital.
“Cuidar não é apenas vigiar. É estar disponível para que crianças e adolescentes possam contar o que estão vendo, sentindo e vivendo na internet. E para que este diálogo ocorra, essa criança também precisa sentir confiança e segurança no adulto para partilhar o que vê”, afirma Andreya Arruda, supervisora do serviço de psicossocial da Defensoria. “Crianças e adolescentes precisam de algum espaço de autonomia. Mas precisam também saber que existe um adulto atento, disponível e capaz de escutar sem transformar toda conversa em bronca, castigo ou apreensão do celular”, explica.
Tirar a tela. E colocar o quê no lugar?
Talvez essa seja uma das perguntas mais difíceis, porque é relativamente simples recomendar menos tela. Mais complicado é responder o que existe fora dela.
A proposta não é transformar o tempo longe do celular em mais uma tarefa na agenda da família. Nem criar a ideia de que todo momento da infância precisa ser produtivo, educativo ou organizado pelos adultos.
Uma das peças da campanha fala da importância do ócio. Brincar sem objetivo também importa. Conversar. Andar. Inventar alguma coisa. Ficar sem fazer nada por alguns minutos. Encontrar outras crianças. Se mexer. Até o tédio tem alguma função numa infância em que estímulos chegam o tempo inteiro.
A campanha estará nas redes sociais, durante o segundo semestre de 2026 e também ganhará um eixo dentro do projeto Minha Escola Ensina Direitos. No fim do ano, um concurso vai convidar crianças e adolescentes a responderem a uma pergunta que resume boa parte da proposta: “Qual infância não cabe na tela?”
A resposta, talvez, não caiba em uma tela. Porque a vida acontece, principalmente, quando alguém levanta os olhos da tela e encontra outra pessoa do outro lado.



