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Em Nome Delas: nova série da Defensoria apresenta histórias que a fé não deixou esquecer

Em Nome Delas: nova série da Defensoria apresenta histórias que a fé não deixou esquecer

Publicado em
Texto: Bianca felippsen
Arte: diogo Braga

Histórias de mulheres e meninas assassinadas no Ceará expõem como a devoção popular ajudou a preservar as memórias de violências contra as mulheres. Aos 20 anos da Lei Maria da Penha, o especial Em Nome Delas investiga estas memórias  e os caminhos que a legislação toma para buscar proteção e justiça

Maria Antônia da Conceição retorna para a casa dos pais ao descobrir que estava sendo traída pelo marido, Bil. Em 11 de março de 1926, em Várzea Alegre, Maria Antônia foi assassinada por ele. Em 2026, esse crime completa 100 anos. A memória de sua morte atravessou gerações, alimentada por promessas, oração e devoção. Seu nome popularizado, no entanto, ainda carrega a marca do homem que a matou: Maria de Bil.

A história de Maria de Bil não está sozinha. Em diferentes cidades do Ceará, mulheres e meninas assassinadas passaram a ser reconhecidas pelas comunidades como santas, mártires ou milagreiras. O fenômeno, descrito por pesquisadores como ‘canonização espontânea’, batiza a consagração popular de pessoas comuns, construída a partir da comoção comunitária, pelos relatos de graças alcançadas e pela oralidade, mantendo vivas essas histórias.

Para os devotos, santo é quem está no céu, junto a Deus, e pode interceder por aqueles que permanecem na Terra. A trajetória de vida, as circunstâncias da morte e os milagres atribuídos a uma pessoa podem ser suficientes para que ela seja considerada santa. Na Igreja Católica, o reconhecimento passa por um processo formal, com etapas e critérios próprios.

O especial Em Nome Delas da Secretaria de Comunicação da Defensoria buscou em capelas, oratórios e lugares de devoção, os contextos em que essas crenças foram construídas abordando a violência contra as mulheres em diferentes tempos. A série investiga as violências anteriores aos milagres, relacionando essas histórias, a evolução das leis e dos direitos das mulheres. Também lança o olhar sobre a educação de homens e meninos e sobre os modelos de masculinidade que naturalizam o controle, a posse e a violência.

“Buscamos contar histórias de mulheres vítimas de feminicídio cuja memória foi guardada pela fé popular, a partir da comoção e da identificação das comunidades com elas. São dez mulheres cujas trajetórias, apesar das diferenças, revelam formas de controle sobre a vida e o corpo feminino. Embora essas histórias estejam separadas por décadas e regiões, ao aproximá-las, identificamos traços comuns de machismo, misoginia, dominação e desigualdade de gênero. Por muito tempo, essas violências permaneceram sem nome, reconhecimento, resposta ou justiça”, explica Bianca Felippsen, secretária de Comunicação da Defensoria.

A fé preservou nomes que os arquivos oficiais quase não registraram. A partir dessas memórias, o especial retorna aos lugares onde as mortes aconteceram, ouve as pessoas que mantiveram as narrativas vivas e pergunta o que mudou desde então.

A série terá cinco reportagens e um documentário, aproximando essas histórias da atual rede de proteção para que nenhuma mulher seja lembrada apenas depois de morta.

O mapa das mulheres não esquecidas

 

A equipe da Defensoria percorreu doze diferentes cidades do Ceará, 3.892 km, para reconstituir algumas dessas histórias sem perder de vista o que existia antes da santificação: relações domésticas e afetivas marcadas pela violência de gênero, pelo controle sobre os corpos femininos e pela imposição de escolhas às mulheres.

Em muitos desses lugares, a fonte mais importante não estava nos arquivos oficiais. Idosas que conheciam as rezas, indicavam o caminho até as capelas e recontavam histórias trazidas de suas mães e avós. Foram elas que ajudaram a reconstituir trajetórias que deixaram poucos vestígios nos documentos públicos. Outros idosos também ajudaram nestas narrativas, como coveiros, padres, escritores, agricultores. Muitos destes com mais de 80 anos. O trabalho exigiu tempo e escuta para que lembranças antigas voltassem a encontrar palavras.

“Foi um trabalho feito também de abraços, sorrisos e agradecimentos pela chegada inesperada da equipe. Entramos na casa das pessoas, fomos recebidos com café e ouvimos idosos contarem o que lembravam. Recebemos beijos, abraços e convites para aniversários. Essa escuta também é uma forma de reconhecimento. É ela que aproxima a Defensoria das pessoas”, relembra Bianca Felippsen, uma das repórteres que participaram da apuração em campo.

O caminho percorrido conduz aos 20 anos da Lei Maria da Penha e aproxima os dois tempos. De um lado, a fé popular, que impediu que essas mulheres fossem completamente esquecidas. De outro, a legislação e a rede pública que hoje têm o dever de reconhecer a violência, interromper seus ciclos e proteger quem sobrevive e evitar novas mortes.

Na dinâmica do catolicismo popular nordestino, a morte violenta pode ser ressignificada pelas comunidades. Ela rende à mulher o status de santidade, mas o pano de fundo revela os valores atribuídos às mulheres em diferentes períodos históricos. Castidade, fidelidade, silêncio, obediência e resignação aparecem com frequência nos relatos que sustentam essas devoções. Quando as personagens são organizadas cronologicamente, percebe-se que esses valores atravessam séculos.

É o caso da Romana, na Serra da Meruoca, mulher escravizada, cuja história é situada pela tradição oral por volta de 1850. Sua trajetória revela a brutalidade de uma estrutura fundada na desigualdade, no racismo e na violação do corpo feminino negro. Segundo a narrativa preservada pelos devotos, ela teria morrido ao resistir à tentativa de violência sexual praticada pelo filho do dono das terras e seu capataz.

Maria Lucilene Dias, a Leninha, é conselheira tutelar e responsável pelo Santuário da Santa Cruz de Romana e conta esta história com uma riqueza de detalhes. Para ela, Romana é santa. “A Romana é milagrosa. Ela não foi canonizada, não é reconhecida como santa pelo Vaticano. Mas, para as pessoas que já alcançaram graças, ela é milagrosa. A gente chama de Santa Romana, embora saiba que ela não é oficialmente santa. A gente tem esse discernimento, sabe separar as coisas. Mas ela é muito milagrosa”,  afirma.

Leninha cuida do lugar, uma propriedade particular transformada em Santuário desde 2002. O espaço conta com uma capela grande, a capela menor, 365 degraus com quinze estações da Via Sacra e missas periódicas. No início de setembro, a comunidade realiza uma festa dedicada a Romana, com celebrações e quermesse.

No Cariri, onde a religiosidade popular ocupa um lugar expressivo na vida comunitária, está outra personagem desta série: Benigna Cardoso da Silva. Menina assassinada em 1941, aos 13 anos, em Santana do Cariri,  foi beatificada pela Igreja Católica em 2022. Além de Benigna outras cinco santas que são contadas a partir da região: Mártir Francisca, em Aurora; Maria Filomena, em Mauriti; Maria de Bil, em Várzea Alegre; Maria Marina, em Lavras da Mangabeira e Maria Augusta, em Iguatu.

A concentração dessas devoções no Cariri e no Centro-Sul chama a atenção também pela permanência da violência contra as mulheres na região. Só este ano, o Cariri já registrou 2.300 ocorrências de violência contra mulheres, entre janeiro e junho de 2026, segundo dados da Secretaria Estadual de Segurança Pública do Ceará. “Boa parte dessas mulheres santificadas está na região do Cariri. Então é muito interessante porque lá tem uma forte religiosidade popular, mas também tem um alto índice de feminicídio”, explica a professora doutora em Sociologia, Daniele Ribeiro Alves.

O fenômeno, no entanto, não se restringe ao interior. Em Fortaleza, Regina de Fátima, assassinada pelo tio em 1982, quando voltava da escola, passou a receber homenagens e pedidos no local associado à sua morte. Sua história também integra este especial.

No litoral, a série reconstitui a história de Maria Alice. As personagens estão em diferentes regiões do Ceará, mas suas trajetórias se encontram na violência que sofreram e na maneira como foram preservadas pela memória comunitária.

Entre a lei e a fé, mulheres constroem proteção

A professora e doutora em Sociologia, Daniele Ribeiro Alves, pesquisadora vinculada à Universidade Estadual do Ceará, investiga as relações entre violência de gênero, sofrimento feminino e religiosidade popular. Em sua tese de doutorado, voltou-se à devoção a Isabel Maria, narrada popularmente como Finada Isabel, na serra da Ibiapaba, mais especificamente entre as cidades de Reriutaba e Guaraciaba do Norte, a 307 da capital Fortaleza.

A pesquisadora deslocou o olhar dos espaços institucionais geralmente associados à violência contra as mulheres para um território pouco observado: a capela. “É uma perspectiva de fato desassossegadora, porque geralmente, quando a gente vai fazer pesquisa de violência contra as mulheres, onde nós vamos procurar essas mulheres? Nas delegacias, nos juizados. Então me veio esse insight de pensar essa violência a partir da religiosidade”, explica.

A escolha desse campo de pesquisa exigiu que Daniele reconhecesse que essas mulheres elaboravam suas experiências por meio de repertórios distintos daqueles utilizados por ela. “Eu estava com todas as minhas ferramentas feministas, de gênero e de políticas públicas. Ao me deparar com mulheres com discursos completamente diferentes do meu, tive primeiro que me desconstituir e entender que fé era aquela, que religião era aquela. Compreendi, assim, que a fé integra o repertório por meio do qual essas mulheres constroem proteção, força e capacidade de agir”, pondera.

Na experiência das devotas, a lei e a fé não aparecem como caminhos opostos.  “Essas mulheres se sentem protegidas tanto pela lei como pela fé. Elas compreendem que existe o aparato institucional, mas também buscam a religiosidade como uma forma de conforto, porque a fé é importante”, afirma. E acrescenta: “Eu preciso da lei, eu entendo a lei, mas também preciso da fé para que eu possa me fortalecer”.

A pesquisadora ressalta, no entanto, que compreender esses repertórios não significa defender a continuidade das relações violentas. “Eu sou totalmente contra que essas mulheres continuem com seus companheiros em situação de violência, mas compreendo seus repertórios e seus discursos dentro de uma construção machista , dessa alta intensidade patriarcal que é muito forte e nos atravessa. Me atravessa como mulher. Atravessa elas como mulheres”, pondera.

Os processos criminais levaram a pesquisadora a outra constatação. As circunstâncias históricas se modificaram, mas muitas das motivações relacionadas às mortes de mulheres permanecem ligadas à recusa masculina diante de uma separação, de uma negativa ou da perda de controle sobre a companheira.

“Nos processos criminais que analisei, inclusive nos processos atuais, não existe uma mudança significativa nas motivações. São as mesmas: o ‘não’, a separação, a recusa em aceitar que aquela mulher possa decidir sobre a própria vida. Permanece a ideia de posse: se esse corpo não é mais meu, não será de mais ninguém”, afirma.

Daniele ressalta, porém, que a violência não conduz automaticamente à santificação. A transformação de determinadas vítimas em santas populares dependeu também do imaginário religioso, das formas de transmissão das histórias e da comoção produzida em cada comunidade.

“Não dá para relacionar o aumento do feminicídio à santificação, porque, se fosse assim, teríamos hoje muitas mulheres santificadas, diante do número de feminícidios. Naquela época, porém, a ideia de uma morte sem sossego, de uma alma que não havia encontrado descanso, fazia parte de um imaginário que mobilizava a comoção das comunidades”, explica.